Por Gabriela Moreno
O gasto de pelo menos 300 milhões de dólares na recuperação de espaços públicos motivou a criação de um cadastro de vândalos no Chile.
Qualquer pessoa que agredir um policial no Chile, atacar profissionais de saúde, danificar monumentos nacionais, vender álcool ilegalmente ou usar drogas em público será incluída no Cadastro de Vândalos e Desordem Pública promovido pelo governo de José Antonio Kast, perdendo automaticamente seus benefícios sociais. Algum setor político se oporia a essa reorganização interna focada em segurança? É altamente improvável.
Essa resposta transformou a iniciativa do presidente em uma jogada política estratégica após a saída da ministra da Segurança Pública, Trinidad Steinert, assim como da secretária-geral do Governo, Mara Sedini.
As primeiras sondagens confirmam a precisão de Kast. Um estudo do Centro de Análise de Pesquisa de Mercado (Cadem), realizado horas após o anúncio do projeto, mostra que 87% da população apoia a retirada da Pensão Universal Garantida (PGU), a gratuidade do ensino universitário, os subsídios de aluguel e até mesmo a retenção da restituição do imposto de renda, bem como a proibição da renovação de documentos como passaportes ou carteiras de habilitação, para aqueles incluídos no novo banco de dados estatal.


Estratégia com resultados
O apoio à proposta, que inclui também a inelegibilidade para o registo de veículos no Registo Civil e de imóveis no Registo Predial, é sem precedentes. Será que isto neutraliza a oposição? É evidente. Aliás, o Subsecretário da Secretaria-Geral do Governo, José Francisco Lagos, reconhece isso no jornal El Líbero.
“O que isto faz é materializar uma mudança de paradigma em matéria de segurança e um tipo diferente de empoderamento”, afirma o alto funcionário, após admitir que ninguém pode chamar o cadastro de vândalos de “classista”, pois há consequências previstas que afetam o público em geral.
O impacto no cenário político é visível. “Não serei eu a defender os vândalos. No entanto, acredito que os benefícios sociais não são ferramentas para a aplicação de sanções”, declarou a ex-ministra do Interior, Carolina Tohá.
Discussão em mesa
Com a oposição encurralada, veio à tona que o tempo de permanência no cadastro dependerá da infração. Se for a primeira vez que uma infração é cometida e um tribunal tiver emitido uma sanção, a entrada no cadastro será por um ano. Se a pessoa reincidir e cometer uma segunda infração, permanecerá por três anos, e se cometer uma terceira infração, levará cinco anos para ser liberada.
A discussão chegará ao Congresso nos próximos dias. O Palácio Presidencial espera a aprovação da proposta porque, como afirma Lagos, “a situação de incivilidade e crimes de grande repercussão no país é insustentável”.
A proposta encontra-se num contexto favorável. De acordo com as estatísticas mais recentes do Centro de Estudos e Análises da Criminalidade (CEAD) da Subsecretaria de Prevenção do Crime, o Chile encerrou o ano passado com 230.701 casos de atos de violência que afetaram a infraestrutura, geraram custos econômicos e corroeram a sensação de segurança.
Destas, 122.049 corresponderam a danos à propriedade alheia (móvel ou imóvel) sem o consentimento dos proprietários, 100.284 ao consumo de álcool na rua, 6.981 ao consumo de drogas em espaços públicos e 1.387 a perturbações da ordem pública.
Tendência sustentada e dispendiosa
A tendência deste ano sugere um cenário semelhante. Somente no primeiro trimestre, foram registrados 29.212 casos de consumo de álcool em via pública, 29.896 casos de danos à propriedade, 1.668 casos de uso de drogas e 322 casos de perturbação da ordem pública. A maioria dessas infrações concentra-se na Região Metropolitana, com 43.297 ocorrências registradas. As regiões de Valparaíso e Biobío vêm a seguir, com 13.230 e 10.173 casos, respectivamente.
O impacto é significativo. Varia desde despesas fiscais, quando os bens públicos são afetados, até à interrupção das cadeias de produção, quando os ataques visam máquinas ou caminhões.
O custo é enorme. Somente entre 2022 e 2025, foram necessários US$ 31 milhões para restaurar espaços públicos, iluminação pública e sistemas de CFTV em 268 municípios do país. Esse valor aumenta ainda mais quando se adicionam os US$ 255 milhões necessários para reparar 118 das 136 estações do metrô de Santiago vandalizadas durante os protestos de 2019. Os danos afetaram 87% da rede e, embora 21.766 pessoas tenham sido indiciadas, apenas 4% foram condenadas.
Promotor favorável ao registro de outros crimes
“Quando se cria um ambiente de desrespeito à lei, mesmo em situações menores, isso contribui para a prática de crimes mais graves”, alertou o Procurador Nacional Ángel Valencia, após propor a extensão da iniciativa de Kast a outros crimes.
O chefe do Ministério Público também considera necessário incluir a colusão como crime, visto que esses acordos firmados entre dois ou mais concorrentes para fixar preços ou outras condições de comercialização geram danos coletivos.
Nesse sentido, Valencia afirmou que, se o objetivo do cadastro de vandalismo no Chile é facilitar o reparo dos danos causados a bens públicos ou comunitários, o banco de dados poderia incluir aqueles que se envolveram em práticas desleais que afetam a economia das famílias, bem como a receita do Estado.
No entanto, o Poder Executivo descarta a possibilidade de expandir o cadastro de vândalos para incluir aqueles condenados por crimes econômicos, conluio ou violações de direitos humanos.