Começa a segunda etapa do plano de três fases para a transição na Venezuela elaborado pelos Estados Unidos. A reforma da Lei Orgânica de Hidrocarbonetos, promulgada nesta quinta-feira em Caracas, e a Licença Geral 46, emitida paralelamente por Washington, evidenciam que as condições e o ritmo das mudanças são ditados pelo Norte.
Em tempo recorde e por unanimidade, a Assembleia Nacional da Venezuela, controlada pelo movimento chavista, aprovou na quinta-feira a reforma da Lei de Hidrocarbonetos Orgânicos. Essa reforma permite que o país supere a política petrolífera estatal
implementada por Hugo Chávez em 2006 e faça a transição para um modelo que prioriza o investimento e a operação privados. Essa mudança faz parte de um acordo com os Estados Unidos, que esperam receber entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo sob os auspícios do presidente Donald Trump. Trump realizou uma reunião na Casa Branca há algumas semanas com altos executivos das principais companhias petrolíferas para incentivá-los a investir cerca de US$ 100 bilhões na Venezuela após a prisão de Nicolás Maduro na madrugada de 3 de janeiro. Após a aprovação do Legislativo, Delcy Rodríguez, presidente em exercício, procedeu à promulgação final da lei, assinando-a sem demora. Enquanto isso, Washington emitiu uma licença geral suspendendo algumas sanções ao petróleo venezuelano para abrir caminho para a segunda fase da transição: a recuperação econômica.
A retórica ideológica de Delcy Rodríguez ficou em segundo plano nesta quinta-feira diante dos novos desdobramentos que demonstram o controle contínuo da Casa Branca sobre o Palácio de Miraflores. Além de confirmar seus contatos com o presidente Donald Trump e o secretário de Estado Marco Rubio, a herdeira dos remanescentes do chavismo mostrou que a cooperação com Washington está progredindo sem problemas e com a urgência exigida pelo Norte. Para além das análises sobre quem está puxando os cordões do poder, o importante é que todas as notícias são positivas. Da decisão de reabrir o espaço aéreo comercial à adoção de um modelo de livre mercado na indústria petrolífera, ainda que não tenha sido um reconhecimento do fracasso de mais de duas décadas de um governo que prometia “socialismo ou morte” e que só utilizou o principal recurso natural do país como instrumento político para comprar apoio internacional com os chamados “petrodólares”.
Agora as coisas funcionam de forma diferente. A prioridade não é mais ideológica, mas financeira. Só assim será possível garantir a estabilização política e a recuperação econômica, que constituem as duas primeiras etapas do plano de transição em três fases apresentado por Marco Rubio. A etapa final será, sem dúvida, a mais complexa. O regime tentará ganhar tempo para evitar a perda do poder. No entanto, a determinação demonstrada até agora pelo governo dos EUA é um mau presságio para a estratégia oficial recorrente. Uma análise detalhada da Lei de Hidrocarbonetos Orgânicos, recentemente reformada, e da nova Licença Geral 46 revela que as condições foram impostas por Washington sem qualquer possibilidade de objeção em Caracas.


Condições do Norte sem objeções
O instrumento legal alterado nesta quinta-feira na Assembleia Nacional abre oportunidades significativas para a participação do setor privado tanto na gestão operacional quanto na comercialização, áreas anteriormente reservadas principalmente ao Estado. Da mesma forma, os royalties são reduzidos pela metade, podendo chegar a apenas 15%, e maior segurança jurídica é proporcionada ao permitir que as disputas sejam resolvidas “por meio de mecanismos alternativos de resolução de conflitos, incluindo mediação e arbitragem”.
Entretanto, a Licença Geral 46, emitida simultaneamente, demonstra que Washington estava ciente do que estava sendo aprovado na capital venezuelana. A decisão anunciada pelo Departamento do Tesouro constitui uma permissão mais geral em comparação com a licença individual que permitiu à Chevron manter suas operações na Venezuela, mas, neste caso, com condições e proibições bastante específicas: certas transações e exportações por entidades americanas são autorizadas, os pagamentos devem ser feitos em uma conta bancária controlada pelos EUA, os contratos serão regidos pela lei americana e as disputas devem ser resolvidas nos Estados Unidos. Além disso, são proibidas as trocas de dívida, os pagamentos em ouro ou as transações envolvendo indivíduos ou empresas localizadas na Rússia, Irã, Coreia do Norte ou Cuba.
OFAC acaba de emitir la General License 46 sobre petróleo venezolano: autoriza ciertas transacciones y exportaciones por entidades de EE.UU., pero con condiciones estrictas. Pagos controlados, contratos bajo ley estadounidense y prohibición expresa de operaciones vinculadas a… pic.twitter.com/S2ca12UwCA
— David Alandete (@alandete) January 29, 2026
Se a libertação dos presos políticos e todas essas condições — tanto as incluídas na nova licença quanto as incorporadas na lei reformada — não fossem decisões inteiramente impostas pelos Estados Unidos, então os líderes que permaneceram à frente do remanescente do chavismo poderiam em breve se declarar mais anarcocapitalistas do que o presidente argentino, Javier Milei, e, para espanto de todos, acabariam incluindo entre seus slogans o grito libertário: “Viva a liberdade, dane-se!”