Enquanto Lula participava da Cúpula Brasil-Espanha e do Fórum em Defesa da Democracia com Pedro Sánchez, Machado se recusou a se reunir com o presidente espanhol.

Após uma breve lua de mel com Donald Trump em outubro de 2015, Luiz Inácio Lula da Silva intensificou as tensões bilaterais com gestos públicos de confronto. O objetivo era claro: cultivar um discurso nacionalista que o posicionasse como o “presidente da paz”, em contraste com o “presidente da guerra” diante do Irã, e então, como no caso das tarifas, amenizar o tom e negociar. Essa estratégia buscava fortalecer sua posição eleitoral em meio à queda de popularidade e à ascensão de Flávio Bolsonaro como favorito para desafiá-lo nas eleições de outubro.

No entanto, a viagem de Lula pela Europa, entre 16 e 22 de abril de 2026, passando por Espanha, Alemanha e Portugal, foi ofuscada por María Corina Machado, laureada venezuelana com o Prêmio Nobel da Paz. Em Barcelona, ​​enquanto Lula participava da Cúpula Brasil-Espanha e do Fórum em Defesa da Democracia com Pedro Sánchez, Machado recusou-se a encontrar-se com o presidente espanhol. Em vez disso, reuniu-se com outros líderes democráticos na Espanha, o que lhe rendeu a maior atenção da mídia e dos analistas políticos do país. Sánchez e seu ministro das Relações Exteriores atacaram María Corina, e Lula foi relegado a um papel secundário e incidental no cenário político.

Em Portugal, o contraste foi ainda mais marcante: os protestos contra a presença de Lula contrastavam fortemente com as demonstrações de apoio genuíno a Machado. A visita da laureada com o Nobel gerou mais repercussão do que a do presidente brasileiro, que chegou acompanhado de 15 ministros, mas viu sua narrativa de “investidor da paz” ser ofuscada.

Lula pretendia polarizar o eleitorado ao se contrastar com Trump e projetar a imagem de um estadista calmo e soberano. A realidade, porém, foi bem diferente: a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz roubou a cena na mídia internacional, fazendo com que sua estratégia de confronto tático não surtisse o efeito esperado. Seus aliados progressistas ofereceram alguns aplausos, mas se concentraram mais em atacar a líder venezuelana por sua posição em defesa da luta pela liberdade e democracia em seu país e, sobretudo, porque María Corina afirmou que a Espanha precisava de eleições impecáveis.

Em Portugal, a estratégia também não funcionou como esperado. Com as sondagens de abril de 2016 (CNT/MDA e Datafolha) a mostrarem-no empatado ou com uma ligeira vantagem sobre Flávio Bolsonaro (44,9% contra 40,2%), Lula precisava de um impulso nas suas relações públicas. Flávio, mais conciliador e com amplas alianças, ameaça unir a centro-direita e derrotar o PT em outubro. Os líderes da oposição destacaram o papel dos protestos contra a presença de Lula em Portugal, bem como as estreitas ligações do presidente com líderes de países associados à opressão, corrupção e má governança.

No fim das contas, Lula não buscava romper com Washington, mas sim realizar uma manobra que impulsionasse sua popularidade e lhe rendesse votos. Contudo, a presença de María Corina Machado ofuscou a farsa pacifista naquela ocasião.

Localmente, o PT está conduzindo uma campanha midiática contra a guerra e seus líderes (Trump, Netanyahu e seus aliados), enquanto simultaneamente se apresenta como pacificador mundial. O tempo dirá se essa postura — com a Copa do Mundo no meio — conseguirá recuperar o terreno perdido quando a campanha começar oficialmente.

Por Roderick Navarro.