Por Gabriela Moreno
O sandinista Daniel Ortega conseguiu aumentar a fortuna de sua família em 624.900% com os 5 bilhões transferidos pelo chavismo.
A residência do ditador nicaraguense Daniel Ortega, localizada no bairro de El Carmen, em Manágua, é patrulhada por cães farejadores de explosivos. Dentro do perímetro de 500 metros da propriedade, que inclui um campo de esportes e sete edifícios separados, até mesmo o sistema de esgoto está fechado para evitar qualquer atividade suspeita que possa ameaçar a fortuna de sua família, que cresceu de US$ 400 mil para US$ 2,5 bilhões por meio de negócios ligados à mineração de ouro, petróleo venezuelano e imigração.
Proteger sua fortuna e seus herdeiros é uma prioridade para Ortega, que conseguiu aumentar seu patrimônio em 624.900% em apenas duas décadas, administrando o fundo de US$ 5 bilhões que o regime chavista lhe transferiu por meio da Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (ALBA) em 2007, após retornar ao poder.
Segundo uma reportagem do jornal nicaraguense La Prensa, a privatização e a apropriação de recursos públicos da cooperação venezuelana, juntamente com a gestão discricionária de fundos estatais sem qualquer supervisão nacional, impulsionaram o aumento da fortuna da família Ortega.


Com uma estrutura genealógica
Para acumular riqueza, Ortega criou uma estrutura empresarial composta por pelo menos 22 empresas ligadas a hidrocarbonetos, mídia, imobiliário, publicidade, serviços e fundações.
Este conglomerado, ainda ativo, opera como um poderoso monopólio, garantindo contratos governamentais pagos através do Banco Corporativo (Bancorp). A lista de empresas beneficiadas por este arranjo inclui a DNP Petronic, a Albanisa, a Inversiones Zanzibar, a empresa financeira Caruna e a Difuso Comunicaciones — empresas sancionadas pelos Estados Unidos por lavagem de dinheiro e corrupção.
Todos os parentes de Ortega que fazem parte de sua rede empresarial recebem benefícios, incluindo salários em instituições públicas e empresas estatais ou paraestatais, distribuídos entre os nove filhos do casamento, bem como ex-parceiros e associados próximos, com valores individuais que variam entre dois mil e seis mil dólares por mês.
Ortega também recebe sua parte. Mensalmente, US$ 4.300 são depositados em sua conta pessoal por seu cargo de chefe de Estado na nação centro-americana, onde o trabalhador médio ganha um salário médio de US$ 170.
Minas familiares
O aumento impressionante da riqueza de Ortega coincide com as conclusões do relatório Panorama Social da América Latina e do Caribe 2025, que revelou que seu regime investe apenas US$ 600 por pessoa por ano em gastos sociais, cinco vezes menos que o Chile ou o Uruguai.
Onde está o dinheiro que deveria estar melhorando a qualidade de vida na Nicarágua? O Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros dos EUA (OFAC) vem oferecendo pistas desde janeiro. A agência acusa Ortega de usar empresas de fachada e diversos intermediários para obter moeda estrangeira, ocultar ativos e manter o controle político do país.
O ouro desempenha um papel significativo na fortuna da família Ortega. Estima-se que as empresas do Grupo Minero Xiloá SA (Grumixsa) e da Capital Mining, controladas por seu filho, Laureano Ortega Murillo, tenham gerado mais de US$ 80 milhões, mas o valor seria ainda maior considerando que o ouro representa mais de 35% das exportações nicaraguenses.
As concessões acordadas com empresas chinesas, sem histórico ou experiência comprovada em mineração, que compartilham os mesmos representantes legais e operam com nomes corporativos idênticos, levantam suspeitas sobre o destino dos recursos obtidos dessa forma.
Também está incluído o lucro que o regime sandinista obteve nos últimos quatro anos com o trânsito de 1,1 milhão de migrantes pelo Aeroporto Augusto C. Sandino, em Manágua. Cada migrante pagou entre US$ 1.500 e US$ 2.000 por salvo-condutos, vistos e impostos.