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EUA x China: o retorno da polarização

A diferença entre a antiga Guerra Fria e esse novo conflito é que, hoje, os Estados Unidos e a China não apenas competem entre si, mas também dependem mutuamente.

Azul contra Vermelho. Se eu tivesse que criar um meme para descrever a situação entre os EUA e a China, seria a torre do Mortal Kombat, onde os EUA derrotaram a URSS e agora estão atrás da China.

Mais uma vez, temos um cenário global que começa a apontar para um mundo dividido em dois. E, mais uma vez, os EUA são um ator fundamental.

Como vencedor da última Guerra Fria, os EUA continuam sendo a potência econômica, geopolítica e militar mundial, o que os torna o país mais poderoso do planeta. Mas essa posição já não é tão confortável quanto antes. Sua hegemonia não é total e seu controle está longe de ser absoluto.

O adversário? A China. Mais uma vez, uma nação comunista, como se o destino tivesse determinado que Washington enfrentasse seu nêmesis, que ressurge e retorna à luta.

Em 80 anos, a China se transformou de um país estritamente rural e agrário na segunda maior economia do mundo. Essa transformação não aconteceu da noite para o dia; a China vem trabalhando em seus sistemas internos há algum tempo para se tornar o que é hoje.

Após a morte de Mao Tsé-Tung, a China iniciou um processo de abertura econômica, impulsionado principalmente por Deng Xiaoping no final da década de 1970. Embora o país permanecesse oficialmente socialista e governado pelo Partido Comunista, o governo compreendeu a necessidade de atrair investimentos, aumentar a produção e modernizar a economia. Para alcançar esse objetivo, criou Zonas Econômicas Especiais, áreas do país onde se aplicavam regras econômicas diferentes; em outras palavras, um motor capitalista para sustentar um sistema comunista. Isso deu origem ao “comunismo com características chinesas”.

Nessas zonas, as empresas podiam operar com benefícios fiscais e regulatórios significativos. Os impostos corporativos eram reduzidos, isenções temporárias eram concedidas e a importação de máquinas ou componentes era facilitada com impostos mais baixos. Havia também muito menos burocracia envolvida na abertura de empresas e na produção.

O principal objetivo era transformar a China em uma importante plataforma de exportação, o que foi alcançado. Empresas estrangeiras podiam fabricar produtos a custos muito baixos graças à mão de obra barata, à infraestrutura estatal e aos incentivos fiscais. Esses produtos eram então exportados para o resto do mundo. Isso atraiu gigantes industriais e tecnológicos que estabeleceram fábricas e centros de produção no país.

Um dos casos mais emblemáticos foi Shenzhen, que se transformou de uma pequena vila de pescadores em uma das principais cidades tecnológicas e industriais do mundo. Tornou-se sede de fábricas de eletrônicos, empresas de tecnologia e enormes cadeias de produção que abastecem os mercados globais.

O Estado chinês apoiou esse processo com investimentos maciços em infraestrutura: portos, estradas, energia, ferrovias e parques industriais inteiros. No entanto, a China nunca abdicou completamente do controle estatal da economia. O governo continuou a controlar setores estratégicos como o bancário, o monetário, o fundiário e as grandes empresas estatais. Por essa razão, muitos analistas definem o sistema chinês como uma forma de “capitalismo de Estado” ou “socialismo de mercado”.

As Zonas Econômicas Especiais foram fundamentais para transformar a China em uma potência industrial e tecnológica global. Elas também geraram algumas consequências negativas, como a desigualdade regional (dentro dessas zonas, as pessoas vivem vidas muito ocidentalizadas em termos econômicos, enquanto o resto do país permanece atolado na precariedade à qual os países socialistas nos acostumaram), poluição severa e períodos de intensa exploração do trabalho, mas marcaram um dos maiores períodos de crescimento econômico da história moderna.

Essas Zonas Econômicas Especiais não apenas ajudaram a China a se integrar comercialmente ao mundo, mas também abriram portas culturais para que ela entendesse como fazer negócios com empresas ocidentais e, posteriormente, com governos. Assim, nos encontramos hoje neste encontro histórico entre Donald Trump e Xi Jinping, onde eles definiram, pelo menos por enquanto, o futuro do mundo pelos próximos cinco anos.

A China adotou um papel global muito mais focado no comércio e menos no poder militar; vale lembrar que manteve uma postura relativamente cautelosa em conflitos recentes, como a invasão russa da Ucrânia e as operações conjuntas EUA-Israel contra o Irã. Isso trouxe benefícios e desvantagens, pois enfraqueceu os EUA, seu principal rival, mas ao mesmo tempo afetou parte de seu fornecimento de energia do Oriente Médio. Embora ainda não tenha superado os EUA, conseguiu se tornar uma ameaça significativa graças à sua estratégia de exportação, tornando-se um parceiro comercial fundamental para muitos países, vários deles aliados de longa data de Washington. Mesmo o presidente argentino Javier Milei, no início de seu mandato, disse que considerou a China uma grata surpresa em termos comerciais. Hoje, a China é insubstituível em seu papel como exportadora e comerciante global.

Os EUA continuam a deter uma vantagem significativa, não só devido aos seus tratados, mas também porque o dólar permanece como moeda de reserva para a grande maioria dos países. Isso confere aos EUA o poder de impor sanções e controlar economias em todo o mundo, ao contrário da China, que conseguiu revalorizar o yuan, mas ainda está longe de igualar o poder do dólar.

Em termos militares, a China cresceu enormemente nos últimos anos, mas ainda está longe de igualar as capacidades militares dos Estados Unidos, que não só possuem seu próprio aparato de guerra, como também contam com o respaldo de tratados internacionais como a OTAN e os Acordos de Abraão, que melhoraram significativamente a estabilidade entre Israel e diversos países do Oriente Médio. Além disso, os EUA têm capacidade militar para projetar poder em praticamente qualquer lugar do mundo, desviando ameaças e conflitos de seu próprio território.

Em matéria de energia, os EUA são o maior produtor e consumidor mundial de petróleo. Produzem cerca de 13 milhões de barris por dia e consomem cerca de 20 milhões. É por isso que ainda importam. A China, por sua vez, é um dos maiores consumidores mundiais, ficando atrás apenas dos EUA, e também é a maior importadora mundial de petróleo e GNL.

Em termos culturais, o domínio dos Estados Unidos na cultura global é quase absoluto. Embora a China exerça considerável influência em sua região, suas barreiras linguísticas, culturais e sociais dificultam seu progresso na disputa pelo soft power. Mas a China tem um trunfo na manga: possui as maiores reservas de elementos de terras raras do mundo. Esses elementos são essenciais para a fabricação de tecnologia de ponta. A China não só possui esses elementos, como também desenvolveu uma indústria poderosa, capaz de realizar os complexos processos de extração e processamento desses minerais. Para se ter uma ideia do poder que isso representa, um caça Lockheed Martin F-35 Lightning II utiliza centenas de quilos de elementos de terras raras. Além disso, esses minerais já são parte fundamental do futuro da exploração espacial.

E o que a China quer? Até agora, falou-se de inteligência artificial, cabos submarinos de internet — suas empresas realizam reparos e manutenção desses cabos, o que também lhe confere uma vantagem competitiva sobre outros países —, mas, fundamentalmente, a China quer Taiwan.

A China considera Taiwan parte de seu território desde 1949, quando terminou a Guerra Civil Chinesa. Após a vitória comunista liderada por Mao Tsé-Tung no continente, o governo derrotado recuou para a ilha de Taiwan e continuou a operar ali de forma independente. Desde então, o governo chinês mantém a política de “Uma Só China” e afirma que a ilha deve ser reintegrada ao continente, seja pacificamente ou, se necessário, pela força.

Contudo, o interesse da China em Taiwan não é apenas histórico ou nacionalista. A ilha possui enorme importância estratégica e tecnológica para o mundo moderno. Taiwan abriga a TSMC, a maior fabricante mundial de semicondutores avançados. Os chips que ela produz são essenciais para celulares, computadores, inteligência artificial, automóveis, satélites, centros de dados e sistemas militares. Grande parte da tecnologia global depende direta ou indiretamente dessas fábricas.

Além disso, Taiwan ocupa uma posição geográfica chave no Pacífico. Sua posição é estratégica tanto para o comércio marítimo quanto para o equilíbrio militar entre a China e os Estados Unidos. Para Pequim, controlar Taiwan significaria expandir sua influência naval e romper parte do cerco estratégico que percebe como imposto pela presença militar dos EUA e de seus aliados na Ásia.

Por todas essas razões, Taiwan tornou-se um dos pontos mais sensíveis da geopolítica global. Para a China, representa a soberania nacional e a segurança estratégica; para os Estados Unidos e outros países ocidentais, representa uma peça fundamental da economia tecnológica global e um limite à expansão do poder chinês na região.

Mas, nesta última reunião, a China deixou sua posição sobre Taiwan muito clara. No entanto, os EUA não mencionaram publicamente a questão, embora soubessem que Pequim havia concordado com Washington em alguns pontos importantes, como o Irã não possuir armas nucleares e a China não interferir nos conflitos com os EUA. Vale lembrar também que a China se beneficiaria com a reabertura do Estreito de Ormuz, pois poderia voltar a comprar combustíveis fósseis do Oriente Médio.

A diferença entre a antiga Guerra Fria e esta nova disputa é que hoje os Estados Unidos e a China não apenas competem: eles também dependem um do outro.

Uma domina o sistema financeiro global; a outra domina grande parte da produção industrial e dos recursos estratégicos.

E enquanto ambos tentam evitar o conflito direto, o resto do planeta observa as duas maiores potências do século XXI negociarem, comercializarem e ameaçarem-se mutuamente ao mesmo tempo.

Porque talvez o verdadeiro problema desta nova Guerra Fria não seja quem vence, mas o que acontecerá no dia em que um dos dois lados decidir que não precisa mais fingir que quer evitá-la.

Por Juan Pablo Del Greco.

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