Enquanto o empresário colombiano era acusado nesta segunda-feira em um tribunal federal de Miami por lavagem de dinheiro, seus antigos aliados em Caracas o abandonavam com manobras incomuns.

O caso Alex Saab exemplifica a decadência total do chavismo, que na segunda-feira teve que recorrer a argumentos absurdos para justificar a deportação do empresário colombiano que se naturalizou venezuelano e chegou a ser ministro, mas “com um documento de identidade fraudulento” que possuía “desde 2004”, sem que ninguém percebesse a suposta irregularidade, segundo o ministro do Interior e da Justiça, Diosdado Cabello. Demonstra também que as lealdades dentro do chavismo não são eternas e que, quando alguém cai em desgraça, os demais o abandonam para sobreviver.

Nesta segunda-feira, enquanto o governo interino de Delcy Rodríguez dava explicações sobre essa decisão, o homem acusado há anos pelos Estados Unidos de ser um testa de ferro de Nicolás Maduro foi indiciado em um tribunal federal de Miami por lavagem de dinheiro e conspiração para realizar transações financeiras, além de ocultar e disfarçar a origem dos fundos.

“Alex Saab teria usado bancos dos EUA para lavar centenas de milhões de dólares roubados de um programa alimentar venezuelano destinado aos pobres e provenientes dos lucros da venda ilegal de petróleo venezuelano”, afirmou o Procurador-Geral Adjunto Andrew Tysen Duva em um comunicado, referindo-se aos Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAP) e à estatal petrolífera PDVSA.

Segunda captura: sem enlutados nem salvadores

O Departamento de Justiça também afirma na acusação que Alex Saab é acusado de descumprimento de contratos e de uso secreto de “empresas de fachada, faturas fraudulentas, registros de remessa falsificados e outros documentos fabricados”, além de subornar autoridades venezuelanas, podendo enfrentar uma pena máxima de 20 anos de prisão se for condenado.

Nada disso é novidade. Com a confirmação da deportação no sábado pelo governo interino de Delcy Rodríguez, Alex Saab já foi capturado e entregue às autoridades americanas duas vezes pelos mesmos crimes. Ele foi preso inicialmente em junho de 2020 em Cabo Verde, de onde foi extraditado para os Estados Unidos em outubro de 2021, mas dois anos depois foi libertado pelo governo democrata de Joe Biden como parte das negociações com o regime de Nicolás Maduro para a libertação de americanos presos na Venezuela.

Durante sua prisão em Cabo Verde, Alex Saab foi nomeado diplomata pelo regime chavista numa tentativa — sem sucesso — de impedir sua extradição. Ao retornar a Caracas, foi nomeado presidente do Centro Internacional de Investimento Produtivo e, posteriormente, Ministro das Indústrias e da Produção Nacional, cargo do qual foi exonerado por Delcy Rodríguez duas semanas após ela assumir a presidência interina na sequência da prisão de Nicolás Maduro. Rumores sobre sua prisão circulavam desde o início de fevereiro, mas permaneceram sem confirmação até o fim de semana, quando sua extradição para os Estados Unidos foi oficialmente anunciada.

A manobra chavista para se livrar de Alex Saab

A deportação de Alex Saab tem sido um capítulo complicado para o chavismo, que teve de fazer acrobacias para explicar a decisão com alegações inusitadas. Sem entrar em detalhes, Delcy Rodríguez respondeu em entrevista ao canal estatal Venezolana de Televisión (VTV) que tudo o que foi feito após 3 de janeiro foi em prol dos “interesses nacionais” e que “Alex Saab é cidadão colombiano, ocupou cargos na Venezuela, e essas são questões entre os Estados Unidos da América e Alex Saab”.

Diosdado Cabello se enrolou ainda mais, alegando que Alex Saab cometeu “fraudes de todo tipo” que estão sendo investigadas e que Alex Saab “não é venezuelano” porque, segundo ele, “não há nenhum documento que comprove que ele seja venezuelano”, apesar de haver registros fotográficos de Saab votando nas eleições venezuelanas e, conforme alegou na época o regime, ele chegou a ter até mesmo um passaporte diplomático venezuelano.

“Ele se apresentou com um documento de identidade falso e, com esse documento, fez algumas coisas. Quando buscamos e realizamos uma investigação detalhada, não encontramos nenhum registro (…) que comprove que essa pessoa seja venezuelana. Por isso, tomamos a decisão de deportá-lo”, explicou Cabello em uma coletiva de imprensa , para espanto dos jornalistas, dada a insistência do regime chavista em provar o contrário. Da mesma forma, o canal Venezuela News, que Saab financiava e que foi tirado do ar, agora será relegado à história, e as marchas e campanhas nas redes sociais com a hashtag #FreeAlexSaab serão esquecidas.

Por José Gregorio Martínez.