No mesmo dia em que é divulgada a pesquisa da Genial/Quaest, na qual Flávio Bolsonaro supera Lula da Silva na intenção de voto para as eleições de outubro, o polêmico ministro do Supremo Tribunal Federal determina uma investigação contra o candidato da oposição por supostas calúnias contra o presidente. Trata-se da mesma figura que, na campanha de 2022, proibiu que se referissem a Lula como “ex-presidiário” ou “corrupto”, apesar de ele ter recebido duas condenações por corrupção.
O ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro não estava errado quando, em setembro de 2024, alertou que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, era um “ditador que está causando mais danos ao Brasil do que o próprio Luiz Inácio Lula da Silva”. Ele também não estava longe da verdade quando se referiu à mais alta corte do país como a “ditadura da toga”. O tempo provou que ele estava certo. Alexandre de Moraes demonstrou ser um operador político da esquerda brasileira que não só tem como alvo o ex-presidente e seu círculo íntimo, como também atuou para manter o cofundador do Foro Paulista no poder com uma longa lista de decisões controversas que ele já nem tenta mais esconder. E é justamente quando o candidato à Presidência do Brasil nas eleições de outubro, Flávio Bolsonaro, começa a ultrapassar Lula nas pesquisas, que o controverso ministro volta à cena com um inquérito judicial contra o filho do ex-presidente, condenado e preso por ninguém menos que o próprio Alexandre de Moraes.
A corrida presidencial no Brasil parece, em muitos aspectos, uma repetição da campanha eleitoral de quatro anos atrás. Lula enfrenta novamente o bolsonarismo, agora representado pelo senador Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente, que foi impedido de concorrer após ser desqualificado, condenado e preso. Enquanto o atual chefe de Estado liderava as pesquisas, a campanha parecia transcorrer normalmente, mas, à medida que a diferença diminui e Flávio Bolsonaro assume a liderança, a politização do judiciário vem à tona. Não parece coincidência que, no mesmo dia em que a empresa Genial/Quaest publica uma pesquisa de opinião mostrando Flávio Bolsonaro com 42% dos votos em um cenário de segundo turno e Lula com 40%, Alexandre de Moraes aparece com uma ordem para investigar o candidato da oposição pelo suposto crime de difamação contra Lula da Silva.


Essa é uma carta na manga que ele pode usar se necessário, já que a suposta infração ocorreu há mais de três meses, especificamente em 3 de janeiro, quando, durante a captura de Nicolás Maduro em Caracas, em meio a uma operação militar dos EUA, Flávio Bolsonaro insinuou que Lula seria “delatado” pelo ditador venezuelano deposto. “Lula será delatado. É o fim do Foro de São Paulo: tráfico internacional de drogas e armas, lavagem de dinheiro, apoio a terroristas e ditaduras, eleições fraudulentas”, declarou o então candidato à presidência do Brasil. Agora, com base nessa mensagem, Alexandre de Moraes está iniciando um inquérito judicial contra o candidato líder nas pesquisas. A investigação será conduzida pela Polícia Federal, que terá 60 dias para realizar os procedimentos necessários, coincidindo com o período de campanha eleitoral.
Segundo o magistrado controverso, a postagem de Flávio Bolsonaro em questão ocorreu em um “ambiente virtual público, acessível a milhares de usuários”, o que, acrescenta Alexandre de Moraes no documento apresentado ao Ministério Público, “atribui falsamente, publicamente e ofensivamente atos criminosos ao Presidente da República”. Por sua vez, o Ministério Público determinou que “as provas reunidas, portanto, apresentam indícios concretos das ações do deputado investigado, autoridade com jurisdição especial perante o Supremo Tribunal Federal, no cenário criminal descrito”.
Alexandre de Moraes, protetor de Lula
A abertura desta investigação poderia ser considerada um desenvolvimento juridicamente sólido dentro de um sistema democrático onde a separação de poderes funciona, não fosse o histórico que demonstra a interferência de Alexandre de Moraes nas campanhas eleitorais em favor de Lula da Silva, a partir da Suprema Corte do país. Na reta final da campanha eleitoral de 2022 contra Jair Bolsonaro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), então presidido pelo ministro Alexandre de Moraes, proibiu que Lula da Silva fosse chamado de “corrupto” e “ex-presidiário”, apesar de ele ter recebido duas condenações por corrupção e ter passado 580 dias na prisão. Ele foi libertado devido a tecnicismos jurídicos relacionados à jurisdição territorial do juiz que o condenou, e não porque sua inocência tivesse sido comprovada. Até mesmo o jornal progressista americano The New York Times questionou, na época, se a censura não estaria indo longe demais.
Mas as decisões controversas de Alexandre De Moraes, que sempre pareceram favorecer Lula da Silva, não pararam por aí. Apenas uma semana após a controversa vitória apertada de Lula nas eleições de 2022, o presidente eleito se reuniu com magistrados do Tribunal Supremo Eleitoral (TSE). Durante essa reunião, o juiz Alexandre de Moraes, que presidia o TSE, aproveitou a oportunidade para lhe pedir um projeto de lei para regulamentar as redes sociais, com a intenção de consagrar a censura em lei.
Justiça cega e seletiva
O abuso de poder de Alexandre de Moraes foi exposto nos chamados “Arquivos do Twitter”, que vieram à tona depois que Elon Musk comprou a plataforma, renomeada para X. “O Brasil está imerso em uma repressão generalizada contra a liberdade de expressão liderada por um ministro do Supremo Tribunal Federal chamado Alexandre de Moraes”, alertou o jornalista Michael Shellenberger, que teve acesso aos documentos que mostram como o controverso juiz vinha pressionando a empresa desde 2020 para fornecer dados pessoais dos usuários como parte de sua cruzada para restringir a liberdade de expressão a fim de favorecer uma facção política.
Não é por acaso que do gabinete de Alexandre de Moraes não tenham saído decisões contrárias aos interesses de Lula. Lula não só foi preso por duas condenações por corrupção antes do seu terceiro mandato, como também está atualmente no centro do escândalo do Banco Master. Este escândalo o envolve porque se reuniu em dezembro de 2024 no Palácio do Planalto com Daniel Vorcaro, o dono do banco, que está diretamente ligado ao maior escândalo de fraude do Instituto Nacional de Segurança Social (INSS). Uma investigação que Alexandre de Moraes não ordenará a partir do seu gabinete, ou que simplesmente tentará abafar.