O Artigo 13 do Tratado do Atlântico Norte, assinado em Washington em 4 de abril de 1949, estipula que, 20 anos após sua entrada em vigor, qualquer membro poderá deixar de ser membro um ano após notificar sua decisão ao Governo dos Estados Unidos, que atua como depositário do tratado e é responsável por informar os demais aliados sobre a retirada de um membro.
Washington, 9 de abril (EFE) – O presidente dos EUA, Donald Trump, insistiu nos últimos dias na possibilidade de seu país deixar a OTAN, “considerando seriamente” a retirada da aliança que descreveu como um “tigre de papel”.
O republicano sempre foi crítico da Aliança Atlântica, acreditando que seu país gasta demais na defesa de seus aliados, mas sua frustração aumentou devido à recusa do bloco em se envolver na guerra com o Irã e desbloquear o Estreito de Ormuz.
O próprio secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, explicou na quarta-feira, após se reunir com Trump na Casa Branca, que o presidente está “claramente decepcionado”. Mas será que Trump realmente pode retirar os Estados Unidos da OTAN?
1. O que diz o Tratado da OTAN?
O Artigo 13 do Tratado do Atlântico Norte, assinado em Washington em 4 de abril de 1949, estipula que, 20 anos após sua entrada em vigor, qualquer membro poderá deixar de ser membro um ano após notificar sua decisão ao Governo dos Estados Unidos, que atua como depositário do tratado e é responsável por informar os demais aliados sobre a retirada de um membro.
Portanto, e considerando que já se passaram mais de duas décadas desde então, os Estados Unidos poderiam notificar sua intenção de deixar a aliança, com o paradoxo de que primeiro deveriam notificar a si mesmos e depois comunicar a decisão aos demais membros.
Um ano após essa comunicação, a retirada entraria em vigor.
2. Isso é permitido pela legislação dos Estados Unidos?
Uma lei aprovada em 2023 e promulgada pelo então presidente Joe Biden proíbe o governo dos EUA de “suspender, rescindir, denunciar ou retirar” os Estados Unidos do Tratado do Atlântico Norte sem autorização prévia do Congresso, seja por meio de uma lei específica ou com a aprovação de dois terços do Senado.
Considerando a atual composição do legislativo, mesmo que todos os republicanos votassem pela retirada do país da OTAN, o que é altamente improvável, o apoio de alguns democratas ainda seria necessário, reduzindo ainda mais as chances.
Curiosamente, essa cláusula faz parte da Lei de Autorização de Defesa Nacional de 2024, que foi promovida pelo atual Secretário de Estado, Marco Rubio, então senador republicano, que argumentou que “qualquer decisão de deixar a aliança deve ser rigorosamente debatida e considerada pelo Congresso com a participação do povo americano”.
3. E se Trump se retirar unilateralmente?
Embora essa prática conceda ao presidente amplos poderes em política externa, a legislação da OTAN o impede de efetivar a retirada sem a permissão do Congresso.
Mesmo que o presidente tomasse a decisão e tentasse implementá-la sem a permissão do legislativo, caberia à Suprema Corte dos Estados Unidos tomar a decisão final.
Desde que chegou à Casa Branca em janeiro de 2025, Trump retirou os Estados Unidos de um grande número de organizações e compromissos internacionais, como o Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a agência das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura (UNESCO).
Em janeiro de 2026, ele assinou uma ordem executiva para retirar os Estados Unidos de 66 organizações, tratados e convenções internacionais que, segundo a Casa Branca, “não servem mais aos interesses nacionais”.
4. Quais seriam as consequências para os Estados Unidos caso deixassem a OTAN?
A eventual saída da OTAN isolaria militarmente os Estados Unidos, que atualmente têm acesso direto a 35 bases na Europa que servem como centro de operações na África, no Oriente Médio e na Ásia Central.
Isso enfraqueceria a superpotência americana frente a seus rivais, China e Rússia, forçando Washington a aumentar seus gastos com defesa.
Além disso, embora Trump acuse a OTAN de nunca ter estado presente quando os Estados Unidos precisaram dela, a única vez que o bloco acionou o Artigo 5 para defesa comum foi após os ataques de 11 de setembro de 2001, para apoiar os Estados Unidos.
5. E quanto à Aliança?
O golpe seria muito duro para a Aliança, liderada por Washington desde a sua criação, que perderia cerca de 70% do seu orçamento operacional e quase dois terços dos seus gastos totais com defesa.
Embora não implique o desaparecimento da OTAN, a retirada do maior exército do mundo reduziria consideravelmente a capacidade de dissuasão e defesa do bloco, que foi o motivo de sua fundação.
