O Brasil enfrenta uma encruzilhada: continuar com um modelo de poder concentrado ou abrir caminho para uma renovação institucional que restaure equilíbrios democráticos.
A popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva encontra-se em níveis historicamente baixos. Segundo um estudo recente do Datafolha, apenas três em cada dez brasileiros o apoiam atualmente. Diante das eleições de outubro, o presidente concentrou todas as suas ações em recuperar terreno político. Sua estratégia combina uma narrativa de “presidente da paz” diante de conflitos internacionais, o fim da jornada 6×1 como suposta defesa dos trabalhadores e o manejo calculado de tensões com Donald Trump para transformá-las em vitórias midiáticas.
A recente visita à Casa Branca foi cuidadosamente planejada como um triunfo de imagem para o público brasileiro. Lula apresentou-se como defensor da soberania nacional, abordando temas como comércio, terras raras e uma suposta colaboração no combate ao narcotráfico e ao crime organizado. No entanto, informações reveladas por veículos de comunicação na Casa Branca indicam que as prioridades reais foram o comércio e a mineração. Marco Rubio, figura-chave na administração Trump, sequer participou: estava em um encontro com o papa Leão XIV do outro lado do mundo. A resposta de Trump foi neutra: nem negativa nem entusiasmada. Ainda assim, Lula conseguiu evitar uma declaração crítica do presidente norte-americano, percebido como aliado de Jair Bolsonaro. Isso lhe permitiu vender no Brasil a imagem de “amigo de Trump”, tentando enfraquecer a narrativa oposicionista que insiste em que a pressão norte-americana está surtindo efeito contra seu governo.
Até o veto à nomeação de Jorge Messias como ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), a oposição não havia conquistado outra vitória clara derivada dessa pressão internacional. Vozes oposicionistas destacam que a aplicação da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes e a aposentadoria antecipada do ministro Luís Roberto Barroso criaram uma vaga no STF que Lula não conseguiu preencher. Esse fato é estratégico: se Flávio Bolsonaro vencer as eleições presidenciais e obtiver maioria no Senado, poderá indicar um novo ministro, aprová-lo com facilidade e, além disso, impulsionar processos de impeachment contra outros magistrados questionados. Abrir-se-ia, assim, a possibilidade real de equilibrar um Poder Judiciário radicalmente parcializado.
O verdadeiro campo de batalha serão as eleições para o controle do Senado. Lula precisa elevar urgentemente sua popularidade para conseguir uma maioria favorável que lhe permita governar sem obstáculos. Caso contrário, uma maioria oposicionista consolidada poderá começar a desmontar, passo a passo, o regime de opressão e perseguição judicial que dominou o Brasil nas últimas duas décadas. A concentração de poder no STF, as restrições à liberdade de expressão e as investigações seletivas contra opositores marcaram um período de forte polarização.
Portanto, a frágil estratégia de Lula revela mais fraqueza do que força. Transformar tensões diplomáticas em vitórias internas, vender medidas trabalhistas como avanços sociais e evitar confrontos diretos com Trump são manobras táticas que, por enquanto, não são suficientes para reverter sua baixa aprovação. O Brasil enfrenta uma encruzilhada: continuar com um modelo de poder concentrado ou abrir caminho para uma renovação institucional que restaure equilíbrios democráticos. A popularidade de Lula continuará sendo o fator decisivo em outubro.
Por Roderick Navarro.
