Kast começou com a assinatura de seis decretos de emergência, três deles focados no controle da migração irregular, com o aumento do contingente militar e policial na região norte, juntamente com o aumento das barreiras físicas para conter a entrada irregular de estrangeiros.
O presidente chileno José Antonio Kast não só trabalhará de seu gabinete no Palácio de La Moneda, como também residirá lá. Sua cama e pertences pessoais já estão instalados. Isso não acontecia há seis décadas. No entanto, estabelecer uma distinção clara em relação ao seu antecessor de esquerda, Gabriel Boric, que reflita um ciclo político singular, depende de três fatores: manter a firmeza em cumprir a promessa de lei e ordem, exercer tolerância zero à corrupção e neutralizar a esquerda com realizações concretas.
Esses três pontos corroboram a possibilidade de crescimento econômico como condição para o progresso social, assim como a implementação de um orçamento transparente e o declínio do progressismo no país.
“Um governo com tais realizações pode aspirar com dignidade a ser sucedido por um presidente que ressoe com o amplo espectro de seus apoiadores. Só então poderemos falar da consolidação de uma nova divisão na política chilena, que por sua vez nos permitirá sonhar com um novo ciclo virtuoso para o nosso país”, afirma o economista Luis Larraín em sua coluna para o El Líbero.
Começo com uma direção clara
As evidências disso estão surgindo. Kast começou assinando seis decretos de emergência, três deles focados no controle da migração irregular por meio do aumento da presença militar e policial na região norte, juntamente com o fortalecimento de barreiras físicas para conter a entrada irregular de estrangeiros.
Da mesma forma, o presidente chileno decretou uma auditoria abrangente e minuciosa para esclarecer o estado atual do país. Ele também assinou uma medida destinada a desbloquear projetos e avançar na reconstrução das áreas afetadas pelos incêndios em Viña del Mar, Biobío e Ñuble. No entanto, para Kast, as seguintes iniciativas estabelecem as condições para se discutir um determinado ciclo político:
Manter a determinação
“Autoridade, ordem e ação” — essa é a fórmula de Kast para alcançar um mandato com resultados tangíveis. Manter a determinação para cumprir seu plano é crucial de agora até 2030, pois definirá o legado que sua administração deixará. Cada resultado que combine esses três ingredientes oferecerá sinais claros sobre o fim das concessões que aprofundaram a mediocridade dentro do aparelho estatal. Para o economista Luis Larraín, o ritmo é fundamental.
“Será sua responsabilidade, e a de seus apoiadores, capitalizar essa disposição positiva. Seus primeiros sinais são encorajadores”, observa em sua coluna, onde também enfatiza que o desempenho do gabinete escolhido será crucial, pois o desafio exige excelência e experiência. Buscar o apoio da antiga coalizão Concertación, bem como de ex-funcionários que trabalharam com Sebastián Piñera, legitimará Kast durante seu mandato, além de sua retórica em favor de um serviço público livre de corrupção.
Fiscalizar sem tolerância
Um segundo fator que marcará esta era iniciada por Kast em La Moneda será o resultado da fiscalização das entidades governamentais. A revisão das despesas e das operações dos órgãos públicos ajudará a garantir o princípio da probidade, que declinou durante a presidência de Gabriel Boric após o escândalo envolvendo a distribuição de US$ 400 milhões para fundações aliadas e o uso de atestados médicos falsificados por mais de 25.000 funcionários públicos.
Alinhar o plano de governo com a Controladoria beneficiaria o presidente, dada a existência de um novo padrão nesta matéria, após ter-se tornado público que Boric deixou o cargo com o maior déficit fiscal dos últimos 25 anos.
Apostar na austeridade em gastos supérfluos, no fim da contratação de operadores políticos e em planos turísticos financiados com impostos disfarçados de capacitação exigirá autocrítica e deliberação interna. “O desafio é manter-se fiel à agenda do povo, sem alienar o apoio dos políticos”, observa Larraín.
Neutralizar a esquerda
Há uma terceira variável que não pode ser ignorada após a ascensão de Kast ao poder e que determinará como seu governo será percebido ao final de seu mandato: as ações da esquerda, enquanto oposição, e sua resposta a elas durante seu período no Palácio de La Moneda. Nesse ponto, o presidente chileno parte com uma certa vantagem, já que sua posse sinaliza o surgimento de um novo segmento na política chilena que rejeita qualquer proposta baseada em narrativas de revoluções com objetivos fundamentalistas, narrativas sempre presentes nos discursos de partidos políticos como o Partido Comunista, o Partido Socialista e outros.
Agora, pelo contrário, esta administração, por meio de suas realizações, tem a oportunidade de otimizar o crescimento econômico e, sobretudo, de fomentar a ordem e a responsabilidade individual e institucional como virtudes cívicas. Isso, sem dúvida, neutralizaria a retórica da oposição que busca votos para o próximo mandato, embora essas narrativas de vitimização também sejam minadas pelas ações da administração Boric, que chegou ao poder sob uma coalizão de esquerda.
Nos próximos quatro anos, o presidente precisa encontrar uma maneira de enterrar as políticas voltadas para minorias e sua retórica identitária, que fragmenta em vez de unir. Já existem sinais de que isso pode estar começando a acontecer, incluindo o declínio na percepção pública positiva dos governos de Michelle Bachelet e Boric, juntamente com a condenação da revolta social de outubro de 2019. O tempo está se esgotando.
Por Gabriela Moreno.
