O Departamento de Justiça retirou silenciosamente a afirmação de que o ditador deposto liderava um verdadeiro cartel de tráfico de drogas chamado Cartel dos Sóis. A nova acusação faz referência a um “sistema de clientelismo” e uma “cultura de corrupção” alimentada pelo dinheiro do tráfico de drogas que financia tanto as forças armadas quanto o próprio regime chavista.
Com a captura de Nicolás Maduro e seu primeiro comparecimento perante o Tribunal Distrital do Sul de Nova York, o sistema judiciário dos EUA deu uma guinada inesperada para corroborar as evidências de uma acusação que permanece, mas agora com um detalhe que à primeira vista passou despercebido: o Cartel dos Sóis desaparece dos autos como uma organização criminosa real, e o ex-ditador venezuelano, que era identificado como seu líder, torna-se agora simplesmente o chefe de um sistema clientelista e corrupto, assim como seu antecessor e mentor, o falecido Hugo Chávez.
Esta não é uma mudança fundamental nas acusações contra Maduro, mas sim uma tecnicalidade processual. O Departamento de Justiça retirou discretamente a alegação de que o ditador deposto liderava um verdadeiro cartel de drogas chamado Cartel dos Sóis, por se tratar de uma acusação formal de 2020 que não precisava ser comprovada em tribunal. No entanto, uma vez iniciado o processo legal formal contra ele, após sua prisão e apresentação perante o juiz, cada detalhe do caso teve que ser bem fundamentado para evitar o colapso das acusações, como explicou Elizabeth Dickinson, diretora adjunta para a América Latina do International Crisis Group, ao The New York Times.
“As acusações não precisam ser comprovadas em um tribunal, e essa é a diferença. Claramente, eles sabiam que não poderiam provar isso em juízo”, afirma Dickinson, esclarecendo que a nova acusação contra Maduro é “correta” e “totalmente fiel à realidade”. A acusação revisada não se refere mais a uma organização criminosa, mas a um “sistema de clientelismo” e a uma “cultura de corrupção” alimentada pelo dinheiro do narcotráfico, que financia tanto as forças armadas quanto o próprio regime chavista.
As alterações na nova acusação contra Maduro
A acusação de 2020 do Departamento de Justiça, alegando que Nicolás Maduro lidera o chamado Cartel dos Sóis, foi ratificada em julho de 2025 pelo Departamento do Tesouro, que designou o grupo como organização terrorista, e novamente em novembro do mesmo ano, quando o Departamento de Estado copiou o texto da acusação inicial, que mencionava o Cartel dos Sóis 32 vezes e afirmava que Maduro era seu líder. Agora, a nova acusação o menciona duas vezes e afirma que os lucros do narcotráfico e a proteção de seus associados “fluem para funcionários civis, militares e de inteligência corruptos, que operam em um sistema de clientelismo dirigido por aqueles no topo, conhecido como Cartel dos Sóis, em referência à insígnia do sol usada nos uniformes de oficiais militares venezuelanos de alta patente”.
A este respeito, o
New York Times afirma que o Cartel dos Sóis é um “termo coloquial” da “gíria venezuelana”, citando “especialistas em crime e narcotráfico”, que, segundo essa afirmação, foi “inventado pela mídia venezuelana na década de 1990 para se referir a funcionários corruptos por dinheiro do narcotráfico”. Trata-se do mesmo veículo de comunicação que repetidamente serviu aos interesses do regime chavista com publicações como o editorial de sábado, 3 de janeiro, no qual afirma que “o ataque de Trump à Venezuela é ilegal e irresponsável “, mas que também expôs o ditador deposto, como quando revelou que Maduro supostamente ofereceu a Trump acesso a todos os recursos da Venezuela em troca de sua permanência no poder.
