Fredrich Kadgien, próximo de Göring e ex-membro da SS, conseguiu escapar da queda do regime. Ele estava na Suíça, fugiu para o Brasil e morreu na Argentina. O quadro que colocou o líder nazista de volta nas notícias.
O episódio da prisão de Adolf Eichmann pelo serviço de inteligência israelense na província de Buenos Aires mostrou ao mundo que a Argentina havia sido um dos principais destinos escolhidos pelos nazistas após a queda do regime. Histórias, algumas delas verdadeiras lendas, abundam por toda parte. Ainda mais se você viajar pelo interior do país.
Mesmo com o passar dos anos, as histórias sobre nazistas na Argentina parecem intermináveis. Como aconteceu recentemente na cidade costeira de Mar del Plata, episódios ligados a ex-líderes nacional-socialistas às vezes acabam ganhando notoriedade pública das maneiras mais inusitadas. Um exemplo disso foi uma transação imobiliária clássica, na qual fotos de imóveis à venda circulam.
Vamos voltar no tempo para o que está revolucionando a cidade “feliz”, como a chamam, hoje.
Jacques Goudstikker foi um prestigiado negociante e colecionador de arte judeu holandês que morreu em 1940 enquanto tentava escapar da perseguição nazista. Sua vasta coleção acabou nas mãos do Marechal de Campo Hermann Göring e seus seguidores por meio de compras fraudulentas a preços baixíssimos. Entre as pinturas de Goudstikker estava o Retrato de uma Dama, do pintor italiano Giuseppe Ghislandi (1655-1743). Mais de 1.100 peças foram saqueadas, incluindo obras de artistas tão renomados quanto Rembrandt. Nas últimas sete décadas, seus descendentes se esforçaram para recuperar o máximo possível das pinturas.


A pessoa por trás da história desta pintura foi Friedrich Kadgien, um ex-membro da Schutzstaffel e confidente próximo do próprio Göring, que acabou cometendo suicídio em Nuremberg em 1946, tendo sido considerado culpado de crimes de guerra e condenado à morte pelo tribunal que julgou os líderes nazistas.
Kadgien especializou-se na triangulação e lavagem de dinheiro de judeus e opositores políticos roubados pelo regime. Após a guerra, continuou envolvido nessas atividades, morando na Suíça e, posteriormente, fugindo para o Brasil. Faleceu na Argentina em 1978, com total impunidade.
No ano passado, várias décadas após a morte do criminoso de guerra nazista, um jornalista alemão trouxe seu caso de volta aos holofotes ao investigar Kadgien, que cometeu suicídio na América Latina. Essas investigações concluíram que a figura foi extremamente útil para vários nazistas de alto escalão após os eventos de 1945, na mobilização de fortunas ilícitas em todo o mundo por meio de sofisticadas operações de lavagem de dinheiro e triangulação.
Mas o que às vezes exige investigações internacionais longas e complexas pode ser revelado das maneiras mais simples, inusitadas e inesperadas. Uma das filhas de Kadgien colocou um apartamento em Mar del Plata à venda e publicou fotos do imóvel nos sites imobiliários tradicionais do setor.
Ali, no meio de uma sala de estar com algumas poltronas comuns em qualquer casa de classe média argentina, estava a obra do pintor italiano, roubada pelos nazistas. Essa aparência incomum pode revelar que a filha do líder nacional-socialista desconhecia completamente o valor e a história da pintura, que provavelmente já havia visto em sua casa por décadas.
Segundo especialistas que viram a foto inesperada da venda do apartamento, o Retrato de uma Senhora é, sem dúvida, a obra original. Embora vários jornalistas tenham batido à porta e tocado a campainha nas últimas horas, ninguém atende.
Segundo relatos, as autoridades argentinas já estão tomando medidas para facilitar o retorno da pintura aos herdeiros do colecionador Jacques Goudstikker.
Será este o último capítulo da história nazista na Argentina? Certamente que não.