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Novo eixo do sul: anticomunismo, segurança e abertura econômica

O segundo turno das eleições de 14 de dezembro não decide apenas o futuro interno do Chile. Ele também decide se o país fará parte da superação definitiva do populismo, do isolamento e do protecionismo que tanto prejudicaram a América do Sul.

Os resultados do primeiro turno das eleições presidenciais chilenas, em 16 de novembro de 2025, abalaram o cenário político regional. José Antonio Kast, com quase 24% dos votos, emergiu como o principal candidato de direita e avançou para o segundo turno, em 14 de dezembro, contra a candidata do governo, Jeannette Jara (26,8%). Esse resultado não representa apenas uma rejeição maciça ao governo de Gabriel Boric, cuja taxa de aprovação mal ultrapassa os 30%, mas também um sinal de que o Chile está pronto para abandonar o isolamento ideológico e diplomático que caracterizou os últimos quatro anos.

Na América do Sul, está emergindo um bloco amplamente anticomunista e pragmático: Javier Milei na Argentina, Santiago Peña no Paraguai, Daniel Noboa no Equador e a recente vitória de Rodrigo Paz na Bolívia. Se Kast chegar a La Moneda (o palácio presidencial chileno), o Chile completaria esse eixo ideológico que prioriza a ordem pública, a segurança cidadã, a disciplina fiscal e o livre comércio, deixando para trás as deficiências da América Latina do século XXI: o populismo redistributivo fracassado, o protecionismo sufocante, a tolerância ao crime organizado, o fomento ao narcotráfico e os alinhamentos internacionais baseados no socialismo em vez de interesses regionais comuns.

Sob o governo de Boric, a política externa chilena foi historicamente insignificante: ausências, distanciamento dos países vizinhos devido à sua ideologia e uma ênfase retórica em causas globais progressistas, enquanto o país perdia influência em fóruns como a Aliança do Pacífico. Se algo pode ser elogiado no governo cessante, é sua firme posição contra o regime chavista na Venezuela.

A grande oportunidade reside no Mercosul, que hoje se tornou o símbolo perfeito das próprias deficiências que a região deseja superar. Com uma Tarifa Externa Comum média de 12 a 14%, centenas de exceções, barreiras não tarifárias permanentes e a obrigação de negociar acordos internacionais apenas por consenso, o bloco está estagnado há décadas. O Brasil, sob o governo Lula, defende o modelo protecionista e estatista; Argentina e Paraguai, ao contrário, exigem mudanças estruturais.

Milei foi explícito: reduzir a Tarifa Externa Comum (TEC) para níveis próximos a 5-8%, eliminar as barreiras internas, permitir que cada país negocie acordos bilaterais sem veto coletivo (por exemplo, um acordo de livre comércio entre Argentina e EUA ou Paraguai e China) e transformar o Mercosul em uma verdadeira área de livre comércio, em vez de uma união aduaneira imperfeita. Peña concorda e ameaça com medidas unilaterais caso não haja progresso. Mas será que esses países incentivariam o Chile e a Bolívia a aderirem para aproveitar o alinhamento e impulsionar as reformas?

Não acredito que o Chile, governado por Kast, um crítico de longa data de blocos ideologicamente motivados e defensor da Aliança do Pacífico, vá aderir ao bloco. No entanto, poderia exercer pressão externa, coordenar posições e atrair investimentos para um “eixo liberal-conservador” que também inclua o Equador e a Bolívia.

Essa reforma não seria meramente cosmética: significaria centenas de milhares de novos empregos por meio do aumento das exportações, atraindo cadeias de valor globais que atualmente evitam a região e, sobretudo, o fim do protecionismo crônico que sufocou o crescimento sul-americano por décadas.

A isso se soma a cooperação em segurança. O narcotráfico já não respeita fronteiras: rotas bolivianas, portos chilenos e argentinos, laboratórios paraguaios. Governos com a mesma visão de uma abordagem de “tolerância zero” com o crime, respeito ao Estado de Direito e rejeição à impunidade ideológica podem compartilhar informações em tempo real, realizar operações conjuntas e agilizar extradições — algo impensável nos governos do Foro de São Paulo.

O segundo turno das eleições de 14 de dezembro não decide apenas o futuro interno do Chile. Ele também determina se o país fará parte da superação definitiva do populismo, do isolacionismo e do protecionismo que tanto prejudicaram a América do Sul. Com José Antonio Kast, o Chile pode se unir ao renascimento de uma região próspera, segura e globalmente conectada. A oportunidade é agora.

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