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Nosso tempo é de batalha

É bem fácil perceber que, neste período terrível e doloroso de nossa história, poucos se esforçam por promover o brilho da luz de Cristo em meio às trevas. Muitos se adaptaram à imobilidade geral, outros estão cansados, exaustos, desapontados, amargurados, ou simplesmente entediados. Outros permanecem ativos e dedicados, mas acabam por agir mais em seu próprio nome do que no Nome de Jesus Cristo; isso, contudo, não nos parecerá assim tão estranho se tivermos suficiente clareza a respeito do que está à nossa volta, a respeito da sociedade moderna, com suas pressões enormes, exigências que aumentam e satisfações que diminuem. Como continuar cheios de vitalidade criativa, de zelo pela Palavra de Deus, de desejo de servir e de motivação para inspirar nossos grupos de fiéis quase sempre entorpecidos? Onde devemos procurar alimento e força? O que podemos fazer para aliviar nossa fome e sede espirituais? Na antiguidade, os monges cristãos buscavam o deserto como nova forma de martírio (do grego martyrion, que significa testemunha). O célebre abade Arsênio, um romano bem-educado, da classe senatorial, que viveu na corte do imperador Teodósio, ao rezar a Deus, pedindo que o guiasse no caminho da salvação, ouviu uma voz que lhe disse: “Arsênio, foge, fica em silêncio e reza sempre, pois essas são as fontes da pureza”.

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As expressões fogem, fica em silêncio e reza são um resumo da espiritualidade do deserto. Indicam os três meios de impedir que o mundo nos molde à sua imagem, e são, por isso, três caminhos para a vida espiritual cristã ordenada para a conversão pessoal. A conversão é, efetivamente, obra de toda uma vida. Converter-se é um processo que requer persistência. Converter-se requer uma espécie de fuga, afastar-se de todas as coisas fúteis e nocivas que nos mantêm prisioneiros, para então nos voltarmos para Deus. Mas, do que devemos nos afastar, e onde Deus espera por nós? Quando Deus, cheio de compaixão, quis arrebatar o seu povo da violência, da escravidão e da miséria para tirá-lo do Egito, não foi para tornar a vida confortável e despreocupada, mas para conduzi-lo ao deserto, a fim de que ele fizesse uma experiência de pobreza, de privação, de renúncia, de solidão, de silêncio, de luta contra si mesmo e contra o diabo, que nos torna escravos do mundo, do dinheiro e dos prazeres. É precisamente na simplicidade, na privação e no silêncio que aprendemos a estar atentos a Deus, e que descobrimos ter necessidade d’Ele. O deserto, revolvendo o interior do homem com as ferramentas da sede, do vazio e do silêncio, prepara-o para escutar Deus e sua Lei. O deserto é o lugar excelente, distante do atordoamento dos meios de comunicação e de informação, onde se pode viver uma profunda experiência mística de reencontro com Deus, que nos transforma e transfigura.

No fundo de cada um de nós, há um desejo mais ou menos consciente de fugir desse turbilhão interminável de aparências vazias e decepcionantes em que vivemos. O deserto é a natureza virgem, tal qual Deus a criou, apta a manifestar Aquele que a fez. O deserto retira dos sentidos e das paixões a multiplicidade de satisfações que os contaminam, e as impressões que cegam e prendem. Sua crueza depura e separa. Seu silêncio isola do mundo exterior, e não fornece à alma mais que a uniformidade dos ciclos da natureza e a regularidade da vida que foi traçada, obriga-nos a entrar em nosso mundo interior, do qual estamos em busca.

O deserto é um lugar de sofrimento, de provação, de luta e de purificação, onde Deus nos faz peregrinar, conhecer a fundo o nosso coração, provando-o como “o ouro no fogo” (Cf. Eclo 2,5). Toda vida cristã séria comporta essa etapa decisiva em seu itinerário espiritual. Se, seguindo Abraão, Moisés, os profetas e o povo escolhido, aceitarmos entrar no deserto, morreremos ali para nós mesmos para ressuscitarmos mais vivos, portadores dos frutos do Espírito Santo. Na Bíblia, esse lugar árido é também um espaço sagrado onde nos é dado experimentar a fidelidade divina, a ternura benevolente de sua Providência, que vela sobre nós e nos protege. Quando estamos no meio de tentações, quando experimentamos que não somos melhores do que aqueles que nos antecederam (Cf. 1Rs 19,4), e que nos sentamos, esmagados pelo peso de nossos pecados e de nossas muitas infidelidades, quando estamos desencorajados, no limite de nossas forças em nossa caminhada penosa e difícil em direção à santidade, quando os esforços de conversão e nossa luta para nos conformarmos a Cristo parecem estéreis e não modificam em nada nossa mediocridade humana e espiritual, o que fazer? Onde buscar alívio? Seguindo Elias, temos que atravessar o deserto para chegar à montanha da Aliança que estabeleceremos com Deus. Para salvaguardar essa Aliança e restabelecer a pureza da fé, Elias “marchou quarenta dias e quarenta noites até a montanha de Deus, o Horeb” (1Rs 19,8). “Se dizes: ‘é o suficiente’ – adverte Santo Agostinho – estás perdido. Almeja sempre mais, progride constantemente, progride sempre. Não fica em um lugar, não dá um passo para trás, não te desvia” (Santo Agostinho, Sermão 169,15 – PL 38,926).

Todo esforço para saciar nossa fome e nossa sede espirituais será em vão sem o cultivo da fé em nosso interior será vão. A fé é tão necessária para a vida interior quanto a luz para a vida na Terra. Não deixamos de possuir o sentido da visão porque chegou a noite, mas não podemos ver, porque nos falta a luz do sol. Somente o dom da fé, privilégio maravilhoso, permite o acesso a Deus, com alguma nebulosidade, certamente, mas com a plena certeza da verdade. Como nos diz São Bernardo: “a fé é como uma pré-degustação voluntária e certa de uma verdade ainda não manifesta” (Tratado Sobre a Consideração, III, nº 6).

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