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Luis Arce entrega o lítio boliviano aos russos antes de deixar o poder

O processo para aprovar o acordo de quase US$ 1 bilhão com a empresa russa Uranium One Group para a exploração do lítio boliviano avança na Câmara dos Deputados.

Faltando apenas uma semana para as eleições presidenciais na Bolívia, que definirão o sucessor de Luis Arce, e três meses para sua posse oficial, o presidente de esquerda tenta resolver quaisquer pendências com seus aliados estrangeiros. Antes de sua partida, ele está acelerando a aprovação do contrato que assinou em outubro do ano passado com a empresa russa Uranium One Group para a exploração de lítio por pelo menos 22 anos, renováveis.

O processo para dar sinal verde ao acordo já começou. A Comissão de Economia Plural da Câmara dos Deputados, composta por 15 parlamentares pró-governo, aprovou o documento que permitirá à empresa, afiliada à Corporação Estatal Russa de Energia Atômica (Rosatom), produzir 14.000 toneladas de carbonato de lítio anualmente no Salar de Uyuni, no departamento de Potosí, utilizando a tecnologia DLE (Extração Direta de Lítio).

O acordo de Arce com a empresa russa inclui um investimento de US$ 970 milhões para a implementação de uma fábrica perto do complexo de Llipi, operado pela Yacimientos de Litio Bolivianos (YLB) na região. A empresa também recuperará seu investimento por meio de contratos adicionais de operação, manutenção e comercialização.

Um contrato “a portas fechadas”?

As condições estabelecidas estão gerando protestos. Comunidades exigem aprovação “a portas fechadas” e até mesmo suposta compra de votos. Para Alberto Pérez, presidente do Comitê Cívico de Potosí (Comcipo), as decisões sobre a exploração do lítio boliviano devem ser tomadas pelo novo parlamento.

No entanto, o presidente do Comitê de Economia Plural, Hernán Hinojosa, membro do partido no poder, já anunciou que o contrato que permitirá à empresa russa produzir carbonato de lítio na Bolívia será submetido à análise do Senado Pleno e, se aprovado, será então enviado ao Senado.

Com essa negociação, Luis Arce afirma que a Bolívia aumentará as exportações de lítio para US$ 5 bilhões anuais, superando as vendas de gás, seu principal recurso, que entrou em crise após a interrupção dos investimentos em exploração industrial. Com essa declaração, ele esclarece que a Bolívia foi o país que menos exportou no triângulo do lítio, que também inclui Chile e Argentina: apenas US$ 9,75 milhões.

China nos negócios

Para tanto, o presidente boliviano também autorizou a YLB a assinar um contrato em 26 de novembro de 2024 com o consórcio chinês Hong Kong CBC Investment Limited para instalar mais duas usinas no Salar de Uyuni. Uma delas será uma usina de salmoura residual, que em sua primeira fase produzirá 10.000 toneladas por ano com uma taxa mínima de recuperação de 80%. Na segunda fase, a produção deverá aumentar para mais 15.000 toneladas por ano.

A segunda usina será de propriedade da EDL. Em sua primeira fase, produzirá 25.000 toneladas de carbonato de lítio para baterias anualmente, com uma taxa mínima de recuperação de 80%. Essa capacidade será mantida para a segunda fase. O prazo do contrato, se apenas a primeira fase for aplicada, é de 36 anos. Se a segunda fase for incluída, será de aproximadamente 42 anos.

Há questionamentos em torno da negociação, considerando que em todos os cenários de preço do lítio, a Hong Kong CBC Investment Limited sempre terá um lucro maior que a YLB porque, além de recuperar seu investimento e seus custos de operação e manutenção, receberá: primeiro, 12% de juros sobre seu investimento inicial; segundo, US$ 1.700 por tonelada de carbonato de lítio; e terceiro, 49% dos lucros, de acordo com um relatório recente da Mongabay.

“Esta é a crônica de uma tragédia anunciada. Uma história de erros e concessões que parecem superar qualquer expectativa de rendição na gestão dos recursos naturais do país”, disse José Carlos Solón, sociólogo e diretor da Fundação Solón, organização especializada em direitos ambientais.

O medo da superexploração

Com a entrega do lítio boliviano, que Arce está conseguindo favorecer a Rússia, que já beneficiou a China com a aprovação de seu contrato em fevereiro, em meio a acusações de corrupção, o país caminha para sua sexta tentativa de industrializar o “ouro branco”. O país já tentou isso cinco vezes desde 1975, mas todas falharam por vários motivos.

Nesta ocasião, os parceiros escolhidos levantam preocupações. Há também o risco ambiental que o negócio representa para o acesso das comunidades do entorno à água, aspecto para o qual ainda não foi realizado nenhum estudo de viabilidade.

Apesar disso, o governo boliviano começou a perfurar 178 poços de água em áreas próximas ao salar de Uyuni para operar a planta piloto de carbonato de lítio na comunidade de Llipi, mas interrompeu as operações após reclamações.

Uma das comunidades afetadas é Río Grande. Seus moradores se opõem ao projeto de lítio porque temem ficar sem água, o que afetaria as atividades econômicas nessas áreas, como a criação de camelos, a produção de quinoa e o turismo.

“Eles querem levar água não só para a usina de Llipi, mas também para as usinas que planejam construir com esses novos contratos. A superexploração nos deixaria praticamente sem água, porque eles estão explorando a mesma água que é destinada ao consumo humano em Río Grande”, diz Donny Alí, um líder comunitário.

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