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Igualdade ou liberdade? As contradições da esquerda

Os sistemas mais controlados buscam maior igualdade e estabilidade, mas muitas vezes à custa da restrição de liberdades, direitos e bem-estar econômico.

Acredito que, além das filiações políticas, há uma coisa em que todos podemos concordar: estamos atravessando um período da história marcado por uma incerteza sem precedentes. Não sabemos ao certo o que a humanidade estará fazendo daqui a cinco anos.

De certa forma, o clima global lembra períodos de intensa tensão no século XX. Não necessariamente uma repetição exata da Guerra Fria, mas sim uma crescente polarização entre modelos políticos, econômicos e culturais que disputam influência. Soma-se a isso um contexto tecnológico sem precedentes, em que os avanços aceleram as mudanças a um ritmo difícil de acompanhar.

Nesse cenário, surge uma questão inevitável: importa qual modelo prevalece? Podemos analisar essa disputa como se fosse uma partida de futebol neutra, onde o espetáculo é o que importa?

Claramente que não. O que for decidido hoje moldará as próximas décadas da humanidade.

Hoje vemos diferentes modelos coexistindo — e competindo — em escala global.

Hoje, diferentes sistemas coexistem. Alguns países, com variações, operam sob economias de mercado com maior abertura, integração global e proteção das liberdades individuais. Os Estados Unidos, o Japão, a Austrália e o Uruguai, por exemplo, não são idênticos, mas compartilham um núcleo comum: o mercado como força motriz e o indivíduo como unidade central, a predominância do setor privado, a integração no comércio internacional e a proteção das liberdades individuais.

Em seguida, surgem modelos intermediários, particularmente na Europa Ocidental: Alemanha, França, Espanha e países nórdicos. Nesses casos, o mercado permanece o motor da economia, mas com um papel mais ativo do Estado na redistribuição, na regulação e no sistema de bem-estar social. Esses sistemas buscam equilibrar o crescimento com a proteção social, com resultados que, até o momento, têm sido relativamente estáveis.

E existem modelos em que o Estado desempenha um papel muito mais dominante tanto em questões econômicas quanto políticas, e as democracias como as conhecemos começam a definhar. Embora mesmo dentro desse grupo existam algumas diferenças.

A China, por exemplo, combina um sistema político de partido único com uma economia que, longe de ser completamente planejada, incorpora amplos espaços de mercado sob supervisão estatal. É um modelo que demonstrou uma notável capacidade de crescimento ao combinar todas as características do comunismo com o livre comércio do capitalismo — pelo menos externamente, pois internamente a população é fortemente censurada e reprimida.

A Rússia, por outro lado, funciona mais como um sistema capitalista de Estado com forte concentração de poder político, onde o mercado existe, mas é totalmente controlado pelo governo central. Além disso, as eleições dificilmente podem ser consideradas “livres”. Analistas e organizações internacionais concordam que, durante as eleições, é possível observar restrições a candidatos da oposição, controle ou pressão sobre a mídia, uso do aparato estatal em favor do partido governista e limitações à liberdade de protesto e organização política.

E depois há casos como Cuba ou Coreia do Norte, onde o controle estatal sobre a economia e a vida é total, praticamente sem nenhuma transparência.

Agrupar todos esses modelos sob um único rótulo pode simplificar a análise, mas também a empobrece. No entanto, existe um fio condutor comum a todos eles: o grau de liberdade individual versus o nível de intervenção estatal, a ausência de uma democracia pura e transparente e a garantia dos direitos individuais. Parece que, sem esse controle, imposição e autoritarismo, esses modelos não poderiam funcionar.

De um modo geral, sistemas mais abertos tendem a fomentar a inovação, a concorrência e o crescimento, mesmo que algumas desigualdades persistam. Sistemas mais controlados buscam maior igualdade e estabilidade, mas frequentemente à custa da limitação de liberdades, direitos e bem-estar econômico.

No entanto, além dos próprios modelos, surge outro fenômeno interessante: a forma como esses sistemas são percebidos e defendidos fora de seus contextos originais.

É, no mínimo, surpreendente que em sociedades com altos níveis de liberdade existam setores que idealizam modelos onde essas mesmas liberdades são restringidas. Isso não significa negar as críticas válidas aos sistemas abertos — que certamente existem —, mas sim observar uma certa dissonância entre os valores defendidos e os sistemas que são protegidos.

Encontramos fortes contradições, como o coletivo LGBTQ+ defendendo países cujas normas ou leis os condenam até mesmo à pena de morte, ou movimentos feministas defendendo estados que consideram as mulheres como objetos reprodutivos e diferenciam as punições judiciais por sexo biológico, evidenciando uma desigualdade perante a lei.

Porque uma coisa é um Estado reconhecer a igualdade, mas, na prática, uma sociedade sexista ou patriarcal pode perpetuá-la. Neste caso, porém, a desigualdade está diretamente consagrada em uma lei, regulamento ou constituição. De qualquer forma, a discussão fundamental não é simplesmente “esquerda versus direita”, nem “capitalismo versus socialismo”. É algo mais básico — e mais difícil de resolver:

Quanta liberdade estamos dispostos a abrir mão e quanta intervenção estamos dispostos a tolerar?
Algumas pessoas estão dispostas a ter uma ideologia principal e outra, só por precaução.

Por isso, convido vocês a seguirem as palavras do General Dom José de San Martín: “Sejamos livres e nada mais importa”.

Por Juan Pablo Del Greco.

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