De acordo com os dados da Pesquisa Nacional de Emprego, o número de migrantes sem formalização previdenciária oscila entre 337.255 e 396.500 afiliados. Com base nesse número, a Comissão de Governo do Senado estaria de acordo em permitir que os estrangeiros com formalização profissional, mas que ainda não possuem residência regular, possam sacar seus fundos previdenciários.
Neste momento, é completamente inviável para o Chile expulsar 6.000 venezuelanos em situação irregular que se envolveram em atividades ilícitas ou entraram no país por passagens de fronteira não autorizadas, segundo informações da Polícia de Investigação. O obstáculo que o governo de José Antonio Kast enfrenta para implementar essa medida é a ausência de relações consulares com Caracas. Essas relações foram suspensas em 2024.
Apesar da intenção do governo de apresentar um projeto de lei nesta quarta-feira para criminalizar a entrada ilegal de estrangeiros no país, Ernesto León, chefe da Divisão de Imigração do PDI, reconhece os entraves administrativos para a efetivação dessas deportações. A informação foi divulgada pelo jornal El Mercurio.
Sua declaração coincide com a revelação do peso fiscal que a contínua onda migratória representa no Chile, cujo impacto nas finanças públicas se multiplica. Isso se reflete, por exemplo, em um estudo preparado pela consultoria Qualimet para o Conselho Consultivo de Pensões. O estudo estima que os pagamentos da Pensão Universal Garantida (PGU) à população migrante aumentarão de 60 milhões de pesos em 2025 para 1,6 bilhão de pesos em 2050. Com isso, a comunidade venezuelana será a mais beneficiada, devido ao grande número de venezuelanos que vivem no país sul-americano.
Avanço com custo
O documento indica que o “envelhecimento” da população migrante no país elevará o número de beneficiários estrangeiros de 13.464 registrados em 2022 para mais de 511.000 em 2050. Esse número representa um aumento de 35 vezes em comparação com o número atual.
No entanto, a aceleração começará já em 2036, atingindo seu pico em 2040. Isso ocorre porque a maioria dos migrantes que chegarão aos 65 anos de idade entrou no país entre 2017 e 2024. Nessa época, eles poderão comprovar os 20 anos de residência no país exigidos pela legislação vigente.
Com o passar do tempo, há também um custo macroeconômico associado à migração no Chile, que projeta um aumento nos gastos com pensões destinados a esse segmento, dos atuais 0,0184% do PIB para entre 0,35% e 0,39% do Produto Interno Bruto em 2050.
O aumento representa um desafio financeiro e de planejamento, visto que o sistema precisará se adaptar a uma nova realidade demográfica. Portanto, numa tentativa de superar esse desafio, a bancada parlamentar do Partido Popular (PDG) apresentou um projeto de lei para autorizar o saque de fundos de pensão por estrangeiros e incentivar sua saída voluntária para o país de origem ou outro destino. A proposta implicaria uma alteração constitucional temporária para agilizar esse processo sem possibilidade de fraude e sem o risco de desencadear inflação.
Uma proposta viável diante da crise
O governo Kast se mostrou interessado na iniciativa do PDG após a confirmação de que, de fato, um migrante sem residência legal, mas com emprego formal ou informal, pode contribuir para o sistema previdenciário e até mesmo ter acesso ao seguro-desemprego com um Número de Identificação de Contribuição (NIC). O NIC é um identificador temporário emitido para esses fins, sem conferir status legal ou residência no país até a obtenção do documento de identidade chileno. Posteriormente, após o recebimento do RUT (número de identificação fiscal chileno), os fundos são transferidos para uma conta permanente.
De acordo com dados da Pesquisa Nacional de Emprego, o número de migrantes em situação de aposentadoria informal varia de 337.255 a 396.500. Com base nesse número, a Comissão Governamental do Senado concordaria em permitir que trabalhadores estrangeiros com emprego formal, mas que ainda não possuem residência legal, saquem seus fundos de aposentadoria. Isso seria equivalente ao que os profissionais estrangeiros já fazem sob a Lei nº 18.156, quando comprovam vínculo com o sistema previdenciário de seus respectivos países.
O programa é muito procurado. De fato, o número de solicitações passou de 4.409 em 2014 para 21.898 em 2024, totalizando mais de 121 milhões de dólares. Desses casos, 88% dos aprovados foram de venezuelanos.
Outra alternativa seria, em última instância, implementar um processo de regularização para os quase meio milhão de migrantes venezuelanos que atualmente se encontram em situação irregular. Caso essa medida fosse implementada, estima-se que haveria um aumento de 1,28% na arrecadação de impostos do Chile. Isso elevaria a contribuição dessa comunidade de US$ 409,7 milhões para aproximadamente US$ 510 milhões, caso eles alcancem a plena integração.
No entanto, essa opção foi descartada por Kast, apesar de 82% dos migrantes venezuelanos não terem intenção de retornar ao seu país. Além disso, trata-se de uma população relativamente jovem — com idade média de 36 anos, abaixo da média nacional de mais de 40 anos — e com um nível de escolaridade significativo: 36,8% possuem diploma universitário, 19,7% têm formação técnica e 2,2% possuem pós-graduação. Por outro lado, apenas 36% concluíram, no máximo, o ensino médio.
Por Gabriela Moreno.
