Kast tem uma agenda de trabalho bem definida para reverter a tendência que herdará do presidente de esquerda. Abordar questões de segurança, controle da imigração e crescimento econômico — como prometeu durante sua campanha — será combinado com os esforços de reconstrução nas regiões devastadas pelos incêndios da temporada de 2026.

O republicano José Antonio Kast assumirá a presidência do Chile em março, em meio a uma nova e feroz temporada de incêndios florestais, que sem dúvida moldará seu estilo de governar. Suas decisões e ações para lidar com as consequências da tragédia que já deixou 21 mortos, 600 casas destruídas pelas chamas, quatro jardins de infância reduzidos a cinzas e três escolas primárias completamente devastadas nas regiões de Ñuble, Biobío e La Araucanía, serão o teste definitivo para um presidente que prometeu eficiência.

Diversas condições facilitam a diminuição da pressão política para a estreia do governo republicano, incluindo o desaparecimento do veto à participação privada em tarefas de interesse público ao lado de órgãos estatais, bem como o fim dos conflitos entre os blocos por acertos e déficits na gestão pública.

Kast já está aproveitando o momento favorável. Ele instruiu seus futuros ministros a desenvolverem um plano de reconstrução, especialmente seu indicado para a Habitação, Iván Poduje. Também instruiu as equipes dos futuros Ministérios do Interior e da Segurança a prepararem planos para possíveis emergências futuras relacionadas a incêndios florestais.

Kast inicia sua era diferenciando-se de Boric

Desde sua vitória, o foco de Kast tem sido evitar a má gestão que assolou o governo do presidente Gabriel Boric após o devastador incêndio de 2014 na região de Valparaíso. Isso se torna ainda mais relevante considerando que o atual presidente ainda não liberou US$ 35 milhões em indenizações pelos danos causados ​​pelo incêndio, que destruiu 4.500 casas e 450 empresas. Até o momento, apenas 114 projetos foram concluídos, 876 estão em construção e 2.680 permanecem paralisados.

Especialistas projetam que, nesse ritmo, serão necessários oito anos para a recuperação, pois, embora o Executivo tenha destinado US$ 800 milhões ao Fundo Emergencial Temporário para Incêndios, apenas 14,6% desse valor parece estar sendo utilizado.

Kast tem uma agenda de trabalho bem definida para reverter a tendência que herdará do presidente de esquerda. Abordar questões de segurança, controle da imigração e crescimento econômico — como prometeu durante sua campanha — será combinado com os esforços de reconstrução nas regiões devastadas pelos incêndios florestais de 2026.

“A tragédia, sem dúvida, reforça a ideia de um governo de unidade nacional que o presidente eleito já havia mencionado. Ela cria um contexto que torna isso possível”, afirma o analista Pepe Auth em sua coluna para o ExAnte.

Os primeiros seis meses são cruciais

Os primeiros seis meses do governo de Kast representam o maior desafio do presidente eleito. Este é o período crucial para contrastar com a inércia administrativa que assolou Boric ao assumir o cargo, enquanto aguardava o resultado do plebiscito constitucional, que acabou por dissipar a percepção pública negativa a seu respeito após a derrota da esquerda nas eleições.

Sem eleições à vista, o republicano é obrigado a fidelizar os 58% dos eleitores que conquistou no segundo turno contra a comunista Jeannette Jara, com uma gestão oportuna dos incêndios no Chile. No entanto, a Controladoria antecipa obstáculos.

Dorothy Pérez, titular do órgão fiscalizador, alertou que o financiamento de emergências — como os incêndios que afetam as regiões de Ñuble e Bío-Bío — poderia comprometer os recursos previstos para o reajuste do setor público. Na mesma linha, o Conselho Fiscal Autônomo (CFA) informou ao Congresso a existência de um déficit de financiamento de US$ 822 milhões, o que aumenta as pressões sobre os gastos públicos projetados para 2026.