Para o regime de Xi Jinping, é necessário pôr fim ao que chamam de “abuso”, uma vez que, argumentam, essa situação pode perturbar a estabilidade da cadeia de abastecimento energético da China e pôr em risco a segurança energética e os interesses de desenvolvimento do país.
Em uma reviravolta inesperada, a China ordenou que suas empresas contornassem as sanções americanas contra cinco refinarias privadas ligadas ao comércio de petróleo iraniano. Entre elas está a Refinaria Hengli Petroquímica (Dalian), que foi incluída na lista negra de Washington há um mês por enviar petróleo bruto para portos chineses desde 2023 com o apoio dos militares iranianos.
Segundo informações da Bloomberg, o regime de Xi Jinping acredita ser necessário conter o que chamam de “abuso”, argumentando que essa situação poderia perturbar a estabilidade da cadeia de suprimentos de energia da China e colocar em risco a segurança energética e os interesses de desenvolvimento do país.
Xi Jinping justifica essa medida com regulamentações criadas em 2021, destinadas a proteger empresas chinesas de leis estrangeiras que considerem injustificadas. Em sua visão, o congelamento de ativos e a proibição de transações impostos pela Casa Branca às refinarias se enquadram nessa interpretação. Além disso, as processadoras privadas chinesas concordam em assumir o risco de sanções dos EUA ao aproveitarem o petróleo com desconto proveniente do Irã, da Rússia e da Venezuela.
Bancos no centro da disputa
Os bancos estatais sentirão o impacto da ordem da China. As instituições financeiras agora são obrigadas a priorizar as transações em yuan para evitar a fiscalização dos EUA.
Isso é particularmente vantajoso para a Hengli Petrochemical, considerando suas projeções de obter um empréstimo bancário total de 235 bilhões de yuans (US$ 34,4 bilhões). Será que ela conseguirá obtê-lo sem dificuldades? Depende. Se os Estados Unidos estenderem as sanções secundárias contra bancos estatais, será impossível.
Xi Jinping mergulhou os grandes bancos chineses nessa incerteza apenas dois anos após a falência de mais de 1.000 pequenas instituições de crédito e a absorção de 2.100 bancos rurais, com ativos avaliados em US$ 6,7 bilhões, por outras entidades devido a problemas de financiamento, controles de risco deficientes e uma recessão no setor imobiliário.
A posição de Washington sobre a medida da China é crucial, especialmente considerando que as sanções contra refinarias são uma de suas “moedas de troca” para desbloquear o Estreito de Ormuz por meio de sua mediação.
Cúpula com tensão
O que está claro é que a decisão da China está gerando tensão na véspera do encontro entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e seu homólogo asiático, Xi Jinping, que está agendado para a próxima semana.
A última vez que os dois se encontraram pessoalmente foi em outubro do ano passado, na Coreia do Sul. Naquela ocasião, ambos baixaram a guarda. Trump deixou de lado a ameaça de uma tarifa de 100% e até adiou a imposição de novas exigências para a emissão de licenças de exportação. Xi, por sua vez, optou por suspender as exportações de terras raras e até mesmo por comprar soja americana.
É muito provável que esse cenário se repita, considerando que a manobra da China para contornar as sanções dos EUA visa apenas anular seu efeito legal dentro do território chinês, sem precisar recorrer a retaliações mais agressivas que reacendam a disputa tarifária do ano passado.
Além disso, ainda não há sinais de que a nova trégua diplomática esteja em risco. Apenas algumas horas se passaram desde que Pequim anunciou sua decisão, mas a possibilidade de um colapso diplomático sempre existe. De fato, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, já instou o gigante asiático a intensificar seus esforços diplomáticos para persuadir o Irã a abrir o Estreito de Ormuz à navegação internacional.
“Com relação à China, vamos ver como (as negociações) se intensificam com alguma diplomacia e como os iranianos conseguem abrir o estreito”, afirmou o funcionário americano, após observar que a nação sob a liderança de Xi compra 90% da energia produzida por Teerã.
Por Gabriela Moreno.
