PHVOX – Análises geopolíticas e Formação
Anderson C. Sandes

Atenção, camaradas e companheiros!

Sou um entusiasta das palavras, e muitas vezes já escrevi sobre a importância das mesmas. Para alguém que despreze tal importância, sugiro que passe um dia apenas sem usar palavras de modo algum, nem mesmo para pensamento — pois pensamos com palavras. É impossível, se houver ao menos um pouco de humanidade e civilidade no sujeito.

A forma como nos expressamos fala muito de nós, e até nos molda. Um léxico pequeno, ou seja, um repertório linguístico pobre, gera uma mente que pensa pequeno, limitada. Se excluirmos de nosso vocábulo diário palavras como amizade, perdão, amor e compaixão, o que sobrará de nós? Não digo que as coisas existem necessariamente porque as palavras existem, mas as palavras são símbolos das coisas, e muitas vezes nosso contato primeiro com tais coisas. Posso ter um amigo sem usar a palavra “amigo”, mas de que modo diremos um ao outro o que somos um para o outro de modo preciso? É possível amar sem dizer de tal amor, mas é de um amar faltoso, com a lacuna de um “eu te amo”.

Muito do que entendemos do mundo está relacionado com as palavras que damos aos sentimentos, objetos, relações, etc. Oh, quão angustiante é a vida de um indivíduo que, diante de seu analista, diz estar “muito coisado” ou “meio sei lá”, por faltarem-lhe as palavras para dizer o que sente realmente.

Imaginemos, pois, que muita gente por aí, por razões ridiculamente ideológicas, andam a excluir — e incentivando a excluir — palavras do vocabulário político e social. Motivo? “São palavras de esquerdistas”, dizem com toda a ignorância. A verdade é que os conservadores andam a reclamar de frieza entre os pares, falta de união e até traição, quando propositalmente resolveram arrancar de suas gargantas belas palavras como “companheirismo” e “camaradagem” — que aqui tratarei como sinônimos. Dirigem-se ao público por “galera”, “pessoal”, e cobram mais companheirismo, quando não tratam ninguém com símbolos de companheirismo.

“[…] se os machos da tribo não guardarem a camaradagem, essa instituição dificilmente será respeitada”, disse G. K. Chesterton em O que há de errado com o mundo. A camaradagem não é amizade, e também não é amor, diz o autor, mas admite que, quando muita, a camaradagem pode ser metade da vida humana. Camaradagem é estar sob a mesma condição cósmica, é estar num estado de companheirismo e igualdade quase que de forma física, como acender o cigarro um do outro, ou compartilhar uma mesma mesa de jantar. Nem é amor, nem amizade. É a medida certa e ideal na maioria das relações sociais e políticas. Alguém que se dirige a uma plateia (não no caso de uma comunidade religiosa) por “irmãos”, “amigos” ou — valha-me Deus — “meus amores”, estará mentindo ou, no mínimo, sendo imprecisamente infeliz. Não basta pedir e desejar uma “direita unida”, é preciso falar — e agir, claro — de tal modo.

Não digo de forma alguma que devemos aderir ao vocabulário revolucionário. Mas digo que as palavras foram sequestradas por eles, e algumas merecem resgate e menos desprezo. Querem os conservadores serem frios, distantes, desunidos ou imprecisos? Creio que não.

Eis a sugestão: resgatem dos infernos do logos revolucionário as melhores palavras, perdoem-nas, não as temais e nem as usem de modo tão formal, como fazem os revolucionários. Ensinem seus camaradas a não se afligirem diante das mesmas — sim, chegamos a esse ponto, por ignorância e afetação.

Pode lhe interessar

Choro pelo Monopólio Perdido

Fábio Blanco
2 de junho de 2023

Trump avisa que “em breve” iniciará ações terrestres contra os “traficantes de drogas da Venezuela”

PanAm Post
28 de novembro de 2025

Nova disputa espacial? China lança satélites para competir com a Starlink de Elon Musk

PanAm Post
18 de dezembro de 2024
Sair da versão mobile