Por Roderick Navarro
A Copa do Mundo de 2026 não definirá apenas os campeões em campo, mas também poderá antecipar os vencedores nas urnas.
Em plena Copa do Mundo de futebol, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não resistiu à tentação de se apropriar do símbolo mais unificador do Brasil: a Seleção Canarinha. Em mensagem dirigida ao técnico Carlo Ancelotti e aos jogadores que atuarão contra o Marrocos, Lula exigiu que eles “joguem com alma pelo povo brasileiro”, afirmando que milhares de compatriotas os apoiam. Além do legítimo apoio que qualquer chefe de Estado pode expressar, o momento escolhido revela algo mais profundo: uma tentativa de capitalizar a paixão pelo futebol para fortalecer sua imagem política em um momento delicado.
Líderes populistas entendem que o futebol transcende divisões. Portanto, quando o presidente da República dá orientações sobre como o tempo deve ser jogado “com dedicação e espírito de equipe” em um ambiente eleitoral, com mensagens para fins políticos, surge um alerta. O Brasil enfrenta eleições iminentes e Lula busca se proteger de críticas. O futebol, mais uma vez, é instrumentalizado para dizer ao eleitorado que “o povo” é assim, mesmo que a realidade econômica e os escândalos digam o contrário.
Na Colômbia, o fenômeno é ainda mais intenso e, paradoxalmente, mais criativo em ambos os lados. O candidato presidencial Abelardo de la Espriella, líder do movimento Defensores da Pátria, transformou a camisa amarela da Seleção Colombiana no emblema visual de sua campanha. Apesar das tentativas judiciais de proibi-la, que já foram revogadas por serem consideradas desproporcionais, De la Espriella e seus seguidores a vestem com orgulho em locais públicos, desafiando aqueles que veem o “roubo” de um símbolo nacional. Essa estratégia não é nova, mas tem se mostrado eficaz. Basta mencionar o impacto que o presidente Jair Bolsonaro causou ao transformar a camisa da seleção brasileira em um símbolo nacional e patriótico unificador em torno de sua liderança política.
Já Iván Cepeda, candidato do Pacto Histórico e representante da continuidade petrista, limita-se a aspirações vagas como “organizar uma Copa do Mundo na Colômbia” e critica o uso da camisa como oportunismo. De la Espriella conseguiu associar o patriotismo futebolístico ao seu discurso de ordem, segurança e defesa do país. Cepeda não encontrou criatividade nem oportunidade para capitalizar o mesmo símbolo. Sua tentativa de censurar o uso da camisa acabou sendo contraproducente: apresentou ao seu rival uma narrativa de liberdade de expressão e orgulho nacional.
Ambos os países vivenciam processos eleitorais decisivos em 2026. Na Colômbia, o segundo turno, em 21 de junho, coloca Abelardo de la Espriella como grande favorito. Sua mensagem patriótica, reforçada pela camisa amarela, conecta-se com um eleitorado cansado das ações e da insegurança de Gustavo Petro. Já no Brasil, a situação é mais complexa para a oposição, que carrega o peso do escândalo do Banco Master e das revelações sobre seus vínculos com o banqueiro Daniel Vorcaro. A oposição enfrenta um governo com credibilidade abalada, envolto em escândalos e com um sério problema de sucessão diante da queda de Lula.
Em última análise, os eleitores não são ingênuos. Sabemos distinguir entre verdadeiro orgulho nacional e oportunismo eleitoral. Enquanto na Colômbia parece ter sido encontrada uma fórmula vencedora que combina símbolo e substância, o Brasil, à esquerda, não consegue enfrentar a difícil tarefa de vender um discurso de unidade quando seus próprios escândalos o dividem. A Copa do Mundo de 2026 não só definirá os campeões em campo, como também poderá antecipar os vencedores nas urnas. A bola, como sempre, está rolando. E vocês, fiquem atentos ao resultado.
