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A mudança estratégica do judiciário na Bolívia antes do segundo turno

A decisão do judiciário boliviano de anular e revisar os processos de figuras da oposição busca legitimar sua politização.

O retorno imediato do governador de Santa Cruz, Luis Fernando Camacho, ao cargo sem qualquer ação formal é questão de horas, após ser acusado de terrorismo e detido por dois anos e oito meses na prisão de Chonchocoro. Ele também não deveria acreditar no veredito que o libertou. Seria este o retorno da independência ao judiciário após duas décadas de socialismo na Bolívia?

Os sinais apontam para uma mudança estratégica às vésperas do segundo turno presidencial entre Jorge “Tuto” Quiroga, da Aliança Livre, e Rodrigo Paz Pereira, do Partido Democrata Cristão. A decisão de redirecionar, anular e rever processos judiciais relacionados a líderes da oposição, incluindo a ex-presidente Jeanine Áñez e o líder de Potosí, Marco Pumari, em menos de uma semana, não é coincidência.

Os resultados das eleições gerais realizadas em 17 de agosto, nas quais nenhum dos candidatos abertamente identificados com a esquerda chegou ao segundo turno, reforçaram a mudança. “Este é o fim de um ciclo em que o MAS interferiu na institucionalidade de todos os órgãos do Estado. Seus instrumentos de pressão e coesão foram enfraquecidos”, afirma Javier Quisbert, ex-presidente da Assembleia Permanente de Direitos Humanos (APDH).

Poder sob pressão

O judiciário boliviano busca legitimidade e até mesmo a sobrevivência de seus membros, visto que o Grupo de Trabalho das Nações Unidas sobre Detenções Arbitrárias tem a organização como alvo. De fato, em abril, o grupo emitiu uma resolução declarando a detenção de Camacho ilegal.

Com esse toque de sino, que desafia magistrados, juízes e promotores a enfrentar um “símbolo de resistência”, a liberação antes da transição presidencial oscila entre um gesto de retificação ou uma astúcia do governo de Luis Arce, que deixará o cargo em novembro com processos de corrupção contra ele.

Essas investigações estão longe de serem arquivadas. As acusações contra os três filhos de Arce, relacionadas ao acesso controverso ao crédito e às supostas negociações com projetos de lítio, só agora estão vindo à tona.

Um canalha judicial 

Para a ex-presidente boliviana Jeanine Añez, a mudança na abordagem do Judiciário em seu caso e no de outros oponentes confirma a politização. A ex-funcionária acredita que a Resolução 211/2025 do Quarto Juizado Penal de El Alto, que anula o processo ordinário contra ela e estabelece que ela deve ser processada em um processo de responsabilização e não pela via ordinária, é uma evidência de interferência socialista no sistema.

Áñez insiste que a resposta de sua defesa ao recurso de “exceção de incompetência”, que solicitou um julgamento de responsabilidades — um processo reservado a altos funcionários bolivarianos, que transfere casos de tribunais comuns para o legislativo — deve receber uma resposta primeiro.

Tudo isso foi uma “vergonha”, afirma Añez. “O que está sendo feito aqui não é justiça, é perseguição política disfarçada de processo judicial. E eu não recuso justiça; recuso uma falsa acusação feita pelo Ministério Público, sem qualquer investigação, a mando do partido no poder”, afirmou a ex-presidente.

Processos com protocolo

Para Añez, a verdadeira justiça seria o julgamento do ex-presidente Evo Morales, que agora vive “em completa impunidade”, como o único responsável pelas mortes ocorridas durante uma operação militar e policial em 2019 na usina Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB), em Senkata. Até o momento, não há indícios de que isso aconteça.

No entanto, a decisão favorável a Áñez, assinada pelos juízes David Kasa Quispe, Wendy Rojas Chuquimia e Pedro Canaza Kuno, esclarece que a medida se aplica apenas a este caso e não implica absolvição ou encerramento definitivo do processo. O processo está suspenso até que uma decisão do Ministério Público determine se um processo de responsabilidade deve ser iniciado.

Durante o julgamento de responsabilização, o acusado deve se defender em liberdade, mas Áñez está cumprindo uma pena de 10 anos de prisão por outro caso chamado “Golpe de Estado II”, acusada de se colocar ilegalmente na linha de sucessão presidencial em 2019. Ela também enfrenta pelo menos outros sete casos nos tribunais comuns.

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