O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, disse nesta quinta-feira em uma entrevista que o retorno de Nicolás Maduro “não é a principal preocupação” dos venezuelanos, que têm como prioridade “a possibilidade de fortalecer a democracia”.
Não é segredo que Nicolás Maduro se tornou um problema para a esquerda latino-americana, que busca sobreviver dentro da estrutura da democracia. O presidente chileno, Gabriel Boric, foi o primeiro a se distanciar do ditador após as eleições fraudulentas de 28 de julho de 2014. O êxodo de mais de oito milhões de venezuelanos espalhados pelo mundo (principalmente em países da América do Sul), as investigações de órgãos internacionais sobre violações de direitos humanos e as acusações de ligações com o narcotráfico transformaram o herdeiro do chavismo em um verdadeiro obstáculo, difícil de defender. O colapso da ordem constitucional após o anúncio do resultado fraudulento das eleições foi — para alguns líderes de esquerda — a gota d’água. No Brasil, país vizinho, a complexa questão da Venezuela tornou-se muito incômoda para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, após a prisão de Maduro, conseguiu se desvencilhar do labirinto político e ideológico em que se encontrava.
Lula, juntamente com seu homólogo colombiano, Gustavo Petro, tentou encontrar uma solução para a crise na Venezuela após as eleições presidenciais, que ambos os líderes consideraram, no mínimo, questionáveis. Embora não ousassem falar diretamente de fraude, exigiram a publicação das atas oficiais de apuração e se recusaram a reconhecer os resultados implausíveis anunciados pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE). Com o passar do tempo, Petro decidiu ignorar a situação e manter relações “institucionais” com Caracas, embora ocasionalmente defendesse seu antigo aliado contra a pressão militar dos EUA, invocando a conveniente “soberania” e a “autodeterminação dos povos”. Por sua vez, Lula optou por um distanciamento mais notável, que atenuou com tímidas exigências em relação à defesa do direito internacional. Hoje, ele não precisa mais esconder sua posição.


Para a decepção do chavismo e dos seguidores da extrema-esquerda internacional que só acreditam em solidariedade automática, Lula cometeu uma “traição” com suas declarações nesta quinta-feira. Em entrevista, quando questionado sobre o que poderia ser feito para trazer Maduro e sua esposa, Cilia Flores, de volta à Venezuela ou para dar aos venezuelanos o controle sobre a extração de petróleo, ele respondeu que “essa não é a principal preocupação”. O presidente brasileiro sugeriu que o mais importante agora é “a possibilidade de fortalecer a democracia na Venezuela”, que os milhões de venezuelanos no exterior possam “retornar” ao seu país e que “a democracia seja efetivamente respeitada e que o povo possa participar ativamente”.
O chavismo está decepcionado com a “traição” de Lula
Isso não agradou aos poucos apoiadores chavistas restantes, que o criticaram pelo apoio “incondicional” que lhe deram quando ele foi preso após receber duas condenações por corrupção no âmbito da Operação Lava Jato. ” Lula passou 580 dias na prisão em um processo orquestrado pelos Estados Unidos. A América Latina e o Caribe se mobilizaram para exigir sua libertação. Oito anos depois, ele diz isso”, reclamou Nacho Lemus, correspondente no Brasil da emissora chavista Telesur, em suas redes sociais.
Sua colega da
Telesur na Venezuela, Madelein García, acrescentou: “Com aliados assim, quem precisa de inimigos?”. Da mesma forma, William Castillo Bollé, ex-diretor da Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel) e presidente da emissora estatal Venezolana de Televisión (
VTV ), lamentou que “Nicolás Maduro esteve lá todos os dias apoiando Lula durante seu injusto encarceramento, e é assim que ele o retribui hoje”. Ele acrescentou que a postura do líder do Partido dos Trabalhadores (PT) decorre de sua próxima viagem a Washington para se encontrar com seu homólogo americano, Donald Trump, com quem compartilha interesses econômicos. “Lula vai conversar com Trump sobre negócios: como extrair petróleo e ganhar dinheiro com a Venezuela; e sobre política: como ajudar Trump com seu plano intervencionista em nosso país, atuando como um supervisor regional para monitorar nossa democracia.”
Lula va a hablar con Trump de negocios: Cómo sacar petróleo y ganar plata con Venezuela; y de política: Cómo ayudar a Trump en su plan injerencista en nuestro país haciendo de capataz regional para vigilar nuestra democracia.
— William Castillo Bollé (@planwac) February 5, 2026
Nicolás Maduro estuvo ahí cada día apoyando a Lula en… https://t.co/uFPmpVEyfn
Para além da dupla decepção que atualmente assola o chavismo – a decapitação do regime e a perda de um aliado histórico – Lula da Silva, tal como Petro, tem duas prioridades em cima da mesa, uma econômica e outra política: proteger as relações comerciais com a maior potência mundial e preservar o poder, concentrando-se na vitória nas próximas eleições presidenciais, o brasileiro a procurar o seu quarto mandato e o colombiano através do seu candidato Iván Cepeda, dada a inexistência de impedimento constitucional à reeleição.