Por Instituto Mises
A economia brasileira não carece de generosidade política, mas sim das condições que permitam às pessoas acumular capital, assumir riscos, contratar trabalhadores e investir a longo prazo.
O Brasil está mais uma vez ensinando aos economistas uma lição que eles não deveriam reaprender: um governo não pode comprar prosperidade estimulando a demanda hoje e deixando que a produção, a poupança e o investimento paguem a conta amanhã. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva expressa publicamente frustração com as altas taxas de juros, mas os números contam uma história mais simples. Os próprios dados do Banco Central do Brasil mostram que as expectativas de inflação permanecem acima da meta, a taxa básica de juros continua alta e os riscos fiscais seguem sendo uma grande preocupação para o mercado. A classe política quer crédito mais barato; a economia se pergunta quem vai pagar por ele.
O contexto imediato não deixa margem para dúvidas. A pesquisa Focus do Banco Central, datada de 15 de maio de 2026, projetou uma inflação de 4,92% para 2026, um crescimento do PIB de apenas 1,85% e a taxa Selic em 13,25% até o final do ano. Também mostrou um déficit nominal projetado de 8,5% do PIB e uma dívida pública líquida próxima a 69,9% do PIB. Este não é o perfil de uma economia estrangulada por um banco central cruelmente ortodoxo. É o perfil de um Estado que gasta e promete demais, e depois reclama quando o preço do tempo aumenta.


A situação fica mais clara ao analisarmos o calendário eleitoral. Segundo reportagem da Broadcast/Estadão baseada em estimativas do BTG Pactual, o governo Lula anunciou medidas de estímulo no valor aproximado de 140 bilhões de reais, já em vigor ou em fase de implementação. Essas medidas incluem isenções fiscais, linhas de crédito subsidiadas, financiamento imobiliário, renegociação de dívidas e auxílio energético para famílias de baixa renda. Muitas dessas medidas são descritas como parafiscais, ou seja, podem não afetar diretamente a dotação orçamentária primária. No entanto, elas ainda injetam poder de compra e crédito na economia. A política monetária, portanto, precisa responder à pressão criada por essa atividade política.
Este é o argumento central da escola austríaca, mesmo quando se evita o jargão. As taxas de juros não são meramente um inconveniente administrativo; elas coordenam as preferências temporais. Sinalizam para empresas, famílias e credores o quanto do consumo presente está sendo sacrificado em prol da produção futura. Quando o Estado expande o crédito ou a renda disponível por razões políticas, tenta encurtar o horizonte temporal da sociedade por decreto. Incentiva os eleitores a consumirem agora, os políticos a contraírem crédito agora e as empresas a interpretarem a demanda temporária como demanda sustentável.
Portanto, as queixas sobre as altas taxas de juros são descabidas. Se a política fiscal e o crédito estatal impulsionam a demanda de curto prazo, enquanto a oferta permanece limitada por impostos, obrigações regulatórias e incerteza jurídica, taxas mais baixas não gerariam capital real. Na maior parte dos casos, elas apenas validariam uma ilusão política. O resultado seria o típico ciclo brasileiro: um aumento no consumo, pressão de alta sobre a inflação de serviços, um prêmio de risco cambial mais fraco, política monetária mais restritiva e, em seguida, mais um debate sobre por que o crescimento não se materializou.
O Relatório de Estabilidade Financeira do Banco Central reforça essa ideia. Ele observa que a atividade doméstica desacelerou conforme o esperado, que o crédito à economia real retraiu devido às condições financeiras restritivas e que os participantes do mercado continuam a citar o risco fiscal como uma grande preocupação para a estabilidade financeira. Alerta ainda que o serviço da dívida das famílias permanece em níveis historicamente altos e está aumentando. Em suma, a economia brasileira não carece de generosidade política, mas sim das condições que permitem às pessoas acumular capital, assumir riscos, contratar trabalhadores e investir a longo prazo.
É aqui que a economia política brasileira difere de um ajuste de mercado normal. Em um mercado, as perdas punem as más decisões. Na política brasileira, incentivos falhos geralmente são refinanciados, subsidiados ou convertidos em novos direitos adquiridos. O eleitor vê um benefício. O político vê índices de popularidade. O Tesouro vê obrigações futuras. O Banco Central vê expectativas de inflação. O empresário vê incerteza. O custo final é pago por meio de investimentos reduzidos, juros mais altos, impostos, inflação ou todos esses fatores combinados.
Os leitores internacionais devem compreender que o problema do Brasil não reside na falta de ambição por parte do Estado. Desde a Constituição de 1988, o país construiu uma vasta estrutura de bem-estar social antes de se tornar uma sociedade rica capaz de financiá-la. Essa estrutura gerou constante pressão política para aumentar os gastos, expandir os benefícios, indexar a dívida, subsidiar o crédito e litigar sobre recursos públicos. Em vez de construir primeiro uma economia de alta produtividade e alta poupança, o Brasil consagrou em sua Constituição uma grande demanda por redistribuição de renda e, posteriormente, tentou extrair a riqueza necessária de uma base produtiva relativamente frágil.
O resultado institucional se reflete nas comparações entre países. O Índice de Liberdade Econômica de 2026 atribui ao Brasil uma pontuação de 52,4, colocando-o na 134ª posição no mundo. Isso não é um destino cultural; é o resultado de políticas. O Brasil cobra impostos pesados, regula excessivamente, litiga constantemente, protege estruturas ineficientes e depois se pergunta por que o crescimento decepciona. Em contraste, a trajetória pós-socialista da Polônia, visível nos dados de crescimento do Banco Mundial e em sua melhor posição no ranking de liberdade econômica, mostra que países que se afastam do controle estatal podem crescer mais rapidamente quando a privatização, os preços de mercado, o investimento estrangeiro e o empreendedorismo são incentivados a reorganizar a produção.
A tragédia do Brasil reside no fato de sua classe política continuar a enxergar o crescimento como algo que pode ser invocado por meio de alocações orçamentárias e programas de crédito. Mas o crescimento não é uma cerimônia; é o resultado cumulativo de poupança, formação de capital, empreendedorismo, segurança patrimonial, livre concorrência e confiança monetária. Quando os políticos injetam poder de compra temporário antes de uma eleição, eles não estão criando riqueza. O que eles estão fazendo é antecipar a demanda e pedir ao Banco Central, ao contribuinte ou à moeda que absorvam a contradição posteriormente.
Portanto, a pressão do governo Lula sobre a política monetária deve ser interpretada menos como uma disputa técnica e mais como um conflito entre o tempo político e o tempo econômico. O tempo político, em grande medida, desconsidera o futuro. Busca aplausos antes das eleições, transfere custos do orçamento geral sempre que possível e caracteriza cada novo programa como um investimento na população. O tempo econômico é mais implacável. Questiona se o novo dinheiro corresponde à nova produção, se o crédito corresponde à poupança real e se as promessas estão alinhadas com a capacidade fiscal futura.
Um programa sério de reformas seguiria na direção oposta. O Brasil precisa de limites constitucionais para o crescimento dos gastos obrigatórios, do fim dos incentivos parafiscais disfarçados, de menos canais de crédito subsidiado, de maior proteção aos direitos de propriedade e contratuais, de uma desregulamentação mais ampla, de impostos mais baixos e simplificados e de uma cultura política que pare de tratar o Banco Central como o vilão dos problemas criados pelo populismo fiscal. O país também precisa de menos centralização. Uma federação que permita aos estados maior autonomia para competir em tributação, regulamentação, infraestrutura e serviços públicos criaria melhores incentivos do que um sistema centralizado que dissemina políticas ruins por todo o país.
A lição para os americanos e outros observadores estrangeiros é simples. O Brasil não está sofrendo por ter disciplina de mercado em excesso. Está sofrendo porque a disciplina de mercado chega tarde demais, depois de anos de política enfraquecendo os sinais que possibilitam a coordenação. A taxa Selic não é a doença; é um sintoma. A doença é a crença de que o estímulo eleitoral pode substituir a acumulação de capital e que a compaixão política pode suspender a escassez. Enquanto o Brasil não abandonar essa ilusão, cada ano eleitoral trará mais uma rodada de auxílios de curto prazo, seguida pela mesma velha conta.
Artigo originalmente publicado pelo Instituto Mises.