A operação que destruiu as aeronaves da organização em pleno voo, em 24 de fevereiro de 1996, durou apenas seis minutos. É o que relembra Arnaldo Iglesias, de 88 anos, um dos sobreviventes da tripulação.

O ex-ditador do regime cubano, Raúl Castro, não poderá mais negar que ordenou o ataque a duas aeronaves da organização humanitária Hermanos al Rescate em 1996. A instrução está registrada em uma gravação que, nesta quarta-feira, a Promotoria Federal do Distrito Sul da Flórida apresentará como prova da acusação formal contra ele, pelo assassinato premeditado de quatro tripulantes durante o abate das aeronaves por caças MiG da Força Aérea cubana.

A gravação de 11 minutos e 32 segundos é fundamental para a acusação formal contra Raúl Castro. Trata-se de uma gravação de áudio feita durante uma reunião que ele teve com jornalistas da ilha quando era Ministro da Defesa e chefe das Forças Armadas de Cuba. Ali, em meio à atmosfera descontraída com repórteres da Rádio Rebelde, na sede provincial do Partido Comunista em Holguín, ele relatou o ataque.

A conversa ocorreu dez anos antes de ele assumir o poder, substituindo seu irmão Fidel. Nela, Raúl Castro relatou a principal instrução dada a Rubén Martínez Puente, chefe da Defesa Antiaérea e da Força Aérea Revolucionária (DAAFAR): “Abata-os no mar quando aparecerem; não consulte quem tem a autoridade.”

Áudio em disco 

Essa ordem de Raúl Castro, contra os aviões da Operação Irmãos ao Resgate, chegou à Torre de Controle em Havana e aos rádios dos MiG-29UB 900 e MiG-23 da ditadura.

Na gravação de áudio, compilada em um CD, sua voz pode ser ouvida claramente e foi verificada por seu ex-secretário particular, Alcibiades Hidalgo, e publicada há duas décadas pelo El Nuevo Herald. Agora, todas as suas ordens para realizar o ataque estão em posse do Departamento de Justiça dos EUA.

Sem remorso, Castro explicou que o ataque contra os aviões da organização humanitária Hermanos al Rescate foi rápido e envolveu “disparos de foguetes”. A operação que destruiu as aeronaves da organização em pleno ar, em 24 de fevereiro de 1996, durou apenas seis minutos. Arnaldo Iglesias, de 88 anos, um dos tripulantes sobreviventes, relembra o evento. “Lembro-me das vozes no rádio, da incerteza e, depois, do silêncio. Um silêncio inexplicável”, disse ele ao El País.

Agonia entre colegas 

O pequeno avião em que Iglesias viajava não foi atingido pelos militares cubanos que, entre as 15h21 e as 15h27 daquele dia, cumpriram o mandato da ditadura.

A perda de contato com o restante de seus companheiros o obrigou a compreender que Armando Alejandre Jr., de 45 anos; Carlos Costa, de 29 anos; Mario de la Peña, de 24 anos; e Pablo Morales, de 29 anos, que pertenciam à equipe de busca e resgate no Estreito da Flórida, assim como ele, haviam falecido.

“Carlos Costa tinha uma calma especial. Mario de la Peña era um jovem entusiasmado e um ambientalista realizado. Pablo Morales era um refugiado que havíamos resgatado, que ajudava outros a alcançar a liberdade que ele já desfrutava, e Armando Alejandre Jr., um cubano exemplar”, destacou Iglesias.

Justiça tardia

Todas essas informações de contexto fazem parte da acusação formal contra Raúl Castro, que será apresentada pelo Ministério Público Federal do Distrito Sul da Flórida. “O que muda com essa gravação é que agora há evidências em áudio de Raúl Castro assumindo total responsabilidade”, disse Wilfredo Cancio, jornalista de Miami que obteve o áudio do ex-ditador.

No entanto, cinco administrações já passaram pela Casa Branca sem enfrentar ações judiciais, apesar das evidências que indicam que os aviões foram abatidos em águas internacionais e não no espaço aéreo cubano.

Até o momento, a única condenação foi a emitida pelo Congresso dos Estados Unidos um mês após os eventos virem à tona. Em sua conclusão, enfatizou-se que “o uso de força letal foi completamente inadequado para a situação apresentada”.

Precedente contra Raúl Castro 

Raúl Castro sabe que o caso o persegue. Aliás, existe também um relatório pericial da Organização da Aviação Civil Internacional (OACI) que o acusa de não ter orientado pequenas aeronaves para além dos limites do espaço aéreo nacional, de não as ter guiado para fora de zonas proibidas, restritas ou perigosas, nem de lhes ter dado instruções para que pousassem em um aeródromo designado.

Existe outro precedente: o juiz do caso, James Lawrence King, decidiu que o regime cubano assassinou “quatro seres humanos no espaço aéreo internacional sobre o Estreito da Flórida”.

Embora o regime de Castro tenha rejeitado a decisão e se recusado a indenizar as famílias das vítimas, os Estados Unidos as compensaram com 93 milhões de dólares em bens congelados do regime.

Além disso, o ex-espião Gerardo Hernández, ligado ao abate do avião, foi condenado à prisão perpétua nos Estados Unidos. Embora tenha sido enviado à ilha em 2014 como parte de uma troca de prisioneiros, seu caso possibilita que a acusação formal contra Raúl Castro, que completará 95 anos em 3 de junho, o leve a um tribunal americano.

Por Gabriela Moreno.