“Ele precisa demonstrar que seu poder e força estão acima de qualquer tentativa política ou civil de resolver as reivindicações da sociedade, independentemente das consequências. Por essa razão, Maduro decidiu que os protestos de 2014 e 2017 não fossem apenas controlados, mas também sufocados e eliminados, sem se importar com a vida das pessoas”, enfatizou Carvajal.
Hugo ‘El Pollo’ Carvajal volta a estar no centro das atenções com o vazamento de novas gravações de áudio nas quais descreve a representantes do Tribunal Penal Internacional como o regime chavista reprimiu civis durante os protestos na Venezuela em 2014 e 2017. Em seu depoimento, enquanto estava preso na Espanha, ele apontou diretamente para Nicolás Maduro e outros altos funcionários chavistas que também estiveram envolvidos.


Antes de ser extraditado para os Estados Unidos, Carvajal respondeu a um questionário sobre o modus operandi da liderança chavista e os crimes contra a humanidade, que estão sendo investigados no caso conhecido como Venezuela I, perante o Tribunal Penal Internacional. Suas declarações detalharam meticulosamente como Nicolás Maduro orquestrou todos os métodos possíveis para reprimir os protestos no país.
“A estratégia em matéria de ordem pública foi decidida por Maduro desde que chegou ao poder e comunicou publicamente ao ministro que qualquer protesto deve ser reprimido. Ele precisa demonstrar que seu poder e força estão acima de qualquer tentativa política ou civil de resolver as reivindicações da sociedade, independentemente das consequências. Por esse motivo, Maduro decidiu que os protestos de 2014 e 2017 não só fossem controlados, mas também sufocados e eliminados, sem se importar com a vida das pessoas”, disse ele em áudios vazados, que posteriormente foram publicados pelo jornalista David Placer.
Então, como se desenrolou esse esquema de repressão? Carvajal abordou essa questão e não hesitou em fornecer detalhes sobre o funcionamento dessa estrutura piramidal, apontando que o regime criou muitos meios ilegais para neutralizar protestos. Estes podem ser resumidos em duas abordagens principais: primeiro, o uso irregular de serviços de inteligência e forças de segurança (DGCIM, SEBIN, CONAS e FAES); e segundo, o uso de grupos armados, coordenados em diferentes níveis e sob a direção de diversos agentes políticos.
O controle dos protestos tem duas variantes. Em primeiro lugar, há o controle formal, destinado a atender à situação de ordem pública de acordo com a lei; e, em segundo lugar, existe um controle informal criado à margem da lei e executado por organizações criminosas paraestatais ou paramilitares.
Da mesma forma, ele explicou que o controle formal é de responsabilidade do Ministro do Interior, que conta com a Polícia Nacional (PNB) para garantir a ordem pública. Caso a capacidade da PNB seja sobrecarregada pela dimensão do protesto, a Diretoria de Ordem Pública da Guarda Nacional é acionada. Embora a Guarda Nacional esteja subordinada ao Ministério da Defesa, sua coordenação para esses fins é feita pelo Ministério do Interior.
“Em teoria, todas as ações de ordem pública são atribuições do ministro do Interior; na prática, quem decide tudo é Nicolás Maduro. Ele tem até comunicação direta tanto com a Polícia Nacional Bolivariana quanto com a GNB para redirecionar, sem ter competência para isso, suas ações de ordem pública”, acrescentou.
Aqueles que executaram as ordens de Maduro para reprimir e sufocar a população também foram apontados. Desta vez, Carvajal citou Tareck El Aissami, Néstor Reverol, Justo Noguera Pietri, Antonio Benavides Torres, Sergio Rivero Marcano, Gustavo González López e Iván Hernández Dala. Ele também nomeou Diosdado Cabello, Pedro Carreño e Freddy Bernal como membros do “comando anti-golpe”. Além disso, citou os comandantes da Polícia Nacional Bolivariana (PNB) de 2014 e 2017, cujos nomes Carvajal não tinha em mãos na ocasião.
Nessas mesmas declarações, Carvajal também aproveitou a oportunidade para pedir clemência e, em suas respostas, acrescentou: “Gostaria de deixar claro que, como cidadão comum da República e deputado da legítima Assembleia Nacional (2015), devo algo ao povo e, em honra a essa população, retirei meu apoio ao governo, fundamentalmente por causa de todas as atrocidades cometidas e da violação dos direitos humanos, como já mencionei.”
Hoje, Hugo “El Pollo” Carvajal está preso em Nova York e, desde sua prisão, tem cooperado com a justiça internacional, acrescentando essas declarações ao seu depoimento perante o TPI. No entanto, ele esclareceu que ainda há informações a serem fornecidas e que não pode divulgá-las neste momento sem garantias para sua segurança pessoal.
“Infelizmente, encontro-me numa situação pessoal de perseguição política que me impede de prestar a colaboração que esta comissão merece”, acrescentou.
Anteriormente, Carvajal havia escrito uma carta, datada de 2 de dezembro, ao presidente dos EUA, Donald Trump, denunciando as atividades de gangues como o Tren de Aragua e o Cartel dos Sóis, e como elas supostamente usavam o narcotráfico como estratégia contra os Estados Unidos. Ele também revelou que, por duas décadas, o regime teria enviado espiões infiltrados, fingindo serem membros da oposição, aos EUA.
Por Milagros Boyer.