O medo está se espalhando pelo gigante asiático, levando alguns pais a retirarem seus filhos da escola. Os números divulgados pelo regime de Xi Jinping sobre transplantes divergem significativamente daqueles relatados por agências independentes.

Cada vez mais, pais estão retirando seus filhos das escolas na China em meio a relatos de uma suposta rede de tráfico forçado de órgãos. Por meio de vídeos virais, depoimentos anônimos e relatos de exames médicos arbitrários, espalham-se temores de que menores sejam aliciados para o mercado negro, prática já denunciada em outros países, como os Estados Unidos.

O conteúdo circula em plataformas de mídia social como WeChat e Douyin (a versão chinesa do TikTok). Lá, é possível encontrar depoimentos como o de Zhugege, cuja filha de 14 anos não frequentará mais a escola. “Não importa mais se ela tiver sucesso acadêmico”, disse ela na plataforma, segundo uma reportagem do The Epoch Times. “Contanto que ela cresça segura, saudável e feliz, isso basta”, acrescentou. Ela não está sozinha. Outros pais tomaram a mesma decisão, desconfiados do regime comunista de Xi Jinping.

Eles relacionam a extração forçada de órgãos de menores a relatos recentes de pessoas desaparecidas. Embora não haja dados oficiais que confirmem uma ligação com a extração de órgãos, a decisão de retirar seus filhos das escolas chinesas não é infundada. Um relatório independente revelou em 2016 que, embora o governo chinês tenha relatado aproximadamente 10.000 transplantes de órgãos por ano, “o volume real de transplantes está entre 60.000 e 100.000 anualmente desde 2000”. Diante disso, a questão é: de onde vieram os órgãos não relatados?

Exames de sangue em menores sem autorização

O debate está se espalhando pelas redes sociais chinesas. O resultado é uma onda de histeria coletiva alimentada pela falta de transparência do Estado e pela negação das acusações de uma política de desaparecimentos para extração de órgãos. Enquanto isso, outra situação alimenta ainda mais as suspeitas: amostras de sangue teriam sido coletadas de jovens estudantes sem o consentimento de seus pais.

Oficialmente, o programa começa com exames de saúde anuais para alunos de escolas públicas. O regime alega que esses exames fazem parte do monitoramento geral de saúde, que inclui medições de altura e peso previamente autorizadas, exames odontológicos e exames de urina e sangue. No entanto, a desconfiança em relação à ditadura de Xi Jinping é generalizada.

Basta analisar outros relatos de extração forçada de órgãos. O grupo Falun Dafa, também conhecido como Falun Gong, afirma que, no início dos anos 2000, seguidores dessa disciplina “foram mortos em larga escala para a extração de seus órgãos”.

Entretanto, o Tribunal da China — um tribunal independente com sede em Londres, composto por juristas e especialistas internacionais — concluiu em 2019 que a extração forçada de órgãos “ocorre há anos em larga escala” e que o número real de transplantes poderia estar entre 60.000 e 100.000. Em outras palavras, corroborou as estimativas publicadas três anos antes em outro relatório.

China, segundo país em transplantes de órgãos

Isso demonstra que o controle social implementado pelo regime chinês — com câmeras de vigilância ou o Grande Firewall para controlar a internet — não é suficiente diante de uma população desconfiada e sempre pronta para levantar a voz contra supostos abusos dos direitos humanos.

Existem mais números que justificam o temor dos pais na China: segundo dados do Observatório Global de Doação e Transplante (GODT), em 2024 o gigante asiático figura como o segundo país com o maior volume total de transplantes de órgãos por ano, com 24.684 no total, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, com 48.935.

O regime chinês mantém uma campanha ativa para promover a doação voluntária de órgãos, mas por trás da narrativa oficial reside uma desconfiança generalizada entre seus cidadãos.